Amarga descoberta científica

O sabor doce da sacarina envia sinais ao cérebro, preparando o organismo para a ingestão de muitas calorias. As calorias não chegam; o cérebro se desregula, entra em pânico, exige o que lhe foi prometido.
Como resultado, o organismo consome mais comida, salgada, doce, amarga ou azeda, pouco importa.
Ou queima menos calorias. E o indivíduo que ingere sacarina termina tão ou mais gordo do que antes.

A experiência foi com ratos de laboratório. Tudo bem, posso não ser um rato. Mas em matéria de chocolates, tortas ou sorvetes, desconfio que minha voracidade cerebral pode muito bem ser comparada à de um roedor médio norte-americano.

A pesquisa haverá de trazer conseqüências terríveis. Nem falo das fábricas de adoçante. Penso no que pode acontecer se a descoberta for aplicada de outros modos.
Suponha, por exemplo, que em vez de provar um gole de guaraná diet, você esteja simplesmente vendo, na mesa ao lado do restaurante, um felizardo refestelar-se num caldeirão de fondue de chocolate.

Seu cérebro, como o de um camundongo, desejará mergulhar na calda derretida; o mero desejo será suficiente para que o seu organismo extraia, de meia bolacha de trigo integral, calorias suficientes para explodir os botões, que mal e mal se fecham, da camisa que você ganhou no mês passado.
Conclusão inevitável: assim como há fumantes passivos, há gordos passivos. Hesito em me incluir tão depressa nessa categoria, mas lanço a advertência.

Logo será necessário reservar alas especiais nos restaurantes para os que comem chocolate; um biombo, decorado com hortaliças, evitará a emissão de mensagens indevidas ao cérebro dos tristes obesos presentes no local.

Anuncia-se uma mudança de paradigma científico. No futuro, haverá mais remédios para o cérebro, e menos para o resto do corpo. E, menos do que regular nosso metabolismo, talvez a preocupação passe a ser, de agora em diante, controlar nosso desejo.

Todo sujeito que luta contra a própria obesidade sempre soube disso, aliás. O problema está nele mesmo. Nenhuma vulgar sacarina poderia ser a poção miraculosa capaz de transformar o seu destino de gordo.

Aquelas pérolas turvas, contadas com atenção, nunca substituíram o prazer de um doce; são na verdade um luxo suplementar, que em geral se economiza (“só duas gotas, obrigado”). Não se contam as calorias, contam-se as gotinhas.

Talvez os neurocientistas tenham de pesquisar também o efeito calmante, hipotensivo, antiansiógeno da sacarina. A insatisfação cerebral do rato alimentado com esse produto teria de ser comparada à angústia do humano que abandonou, para sempre, a ilusão de um emagrecimento à base de adoçantes. Curiosamente, a pesquisa confirma uma hipótese, à primeira vista alucinada, que li no livro “Mais Sexo É Sexo Mais Seguro” (editora Campus). O autor, Steven Landsburg, é um daqueles teóricos da “freakonomics” que se dedicam a aplicar as leis do mercado aos pequenos problemas do cotidiano.

É tão liberalofrênico que considera um absurdo as pessoas fazerem fila para tomar água num bebedouro público; num mundo racional, argumenta, furar filas faria muito mais sentido.

Landsburg arrisca a teoria de que a obesidade aumentou nos Estados Unidos porque mais pessoas consomem produtos light e remédios contra colesterol. Acham que estão cuidando da saúde, e terminam pesando 200 quilos.

E o McDonald`s? É uma das explicações habituais para a engorda geral, que Landsburg descarta. “O McDonald`s decidiu, por capricho, tornar todos mais gordos? Ou suas pesquisas de mercado revelaram que clientes maiores passaram a exigir porções maiores? Aposto na segunda hipótese; afinal, o McDonald`s era tão ganancioso em 1970 quanto hoje.”

O raciocínio é difícil de engolir, porque ignora um processo básico do mercado: o da livre concorrência, capaz de estimular que várias redes de lanchonetes entrem em competição no quesito calorias por centavo de dólar. Mas isso é assunto para outro dia; artigos, como hambúrgueres, fazem mal no modelo “supersized”.

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