Características inatas e adquiridas do psiquismo humano: uma análise do filme “Nell”

Exceto por uma mãe afásica e uma irmã gêmea que morreu ainda criança, Nell não conheceu outras pessoas até sua idade adulta. Desenvolveu uma linguagem precária, quase ininteligível deixando a impressão inicial de que falava uma espécie de dialeto próprio. As hipóteses de autismo e retardo foram aventadas pela equipe médica interessada em estudar seu caso. Nell apresentava ainda movimentos repetitivos, estereotipados e, frente ao espelho brincava com sua imagem, chamando-a de “Mii”, o que fazia a equipe suspeitar de alterações na consciência do “Eu”.

A aproximação e o convívio com Nell puderam mostrar que ela era capaz de comunicar-se, de perceber o outro como entidade fora dela e de criar vínculos afetivos. Apresentava pensamento abstrato ao falar por exemplo da morte além de extrema habilidade perceptiva ao apontar, perante um juiz e toda sua platéia que, embora os homens da cidade tivessem coisas bastante sofisticadas e interessantes, eles não olhavam nos olhos uns dos outros o que, para ela pareceu bastante importante.

Que alterações psíquicas podemos esperar em casos como o de Nell ? Como se dá o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças que sobreviveram sem o contato humano ?

No início de seu desenvolvimento, a criança é incapaz de se diferenciar do mundo, do seio [1]. Este é, segundo Spitz, o estágio do não-objeto. Suas primeiras percepções dizem respeito a coisas dela própria, captadas pelos sistemas intero e proprioceptivo. As sensações de fome, frio, etc são sentidas como intenso desprazer. O apaziguamento deste através da mãe vai dando, juntamente com o desenvolvimento neuro-psico-motor do bebê, lugar a que um importante vínculo afetivo se forme, capaz de transformar estas sensações em experiências realmente significativas. Assim, o contato afetivo com a mãe é de fundamental importância para todas as aquisições do bebê, em qualquer âmbito que pensemos; é – nos praticamente impossível separar as características puramente biológicas do comportamento humano daquelas criadas e/ou moldadas pelo componente ambiental.

O interesse pelo estudo dos casos de crianças que cresceram em total isolamento social passa também por esta questão. Os relatos de dois destes casos encontrados no final do século XVIII / início do XIX trazem informações interessantes [2]. O primeiro deles diz respeito a Victor, um garoto que foi encontrado numa floresta próxima a Aveyron, na região central da França. Aparentava a idade de 12 anos, tinha baixo peso e baixa estatura, não falava, não respondia questões ou qualquer outro tipo de estímulo sonoro a ele dirigido. Sua aparência mental era a de um retardo. Itard, um médico da época interessado em saber se Victor poderia ser educado, se este aparente retardo seria constitucional ou por influência ambiental passou-lhe a dar lições em sua própria casa. Segundo seus relatos de mais de 5 anos de ensinamentos, embora Victor apresentasse grande incremento de sua comunicação gestual, foi incapaz de desenvolver linguagem. Não demonstrou amor ou algum vínculo afetivo mais importante por ninguém; tinha uma preferência pelo seu cuidador que foi entendida muito mais como interesse, necessidade do que como afeto, gratidão. Raramente brincava. Foi incapaz de assimilar o significado de alguns valores sociais básicos como a amizade ou mesmo demonstrar constrangimento diante de determinadas situações. Enfim, seu aspecto comportamental era o de um autista, mas ainda não era possível dizer se isto era ou não constitucional. O outro caso relatado diz respeito ao garoto Kaspar Hauser, encontrado aos 17 anos. Kaspar viveu até esta idade trancafiado num quarto, sem convívio com outras pessoas; conseguia falar apenas alguns fragmentos de conversa. Passou a receber educação: aprendeu a jogar xadrez e princípios sobre jardinagem; compreendeu que plantas são seres vivos e que animais são diferentes de pessoas. Desenvolveu afeto por várias pessoas. Aprendeu também a cavalgar demonstrando inclusive certo talento. Um ano após sua misteriosa aparição passou a questionar e a demonstrar indignação e tristeza por ter sido encarcerado por tanto tempo. Incrementou sua linguagem que, entretanto, ainda era estranha, simples e literal. Nunca foi capaz de ter senso de humor. Embora aparentemente o caso de Kaspar mostre-se de uma evolução mais “benigna” do que o de Victor, percebemos haverem funções psíquicas impossíveis de serem desenvolvidas. Que funções psíquicas seriam irreversivelmente danificadas por um prejuízo causado com uma privação de contato social nos primeiros anos de vida?

No início dos anos 90 foram realizados diversos estudos com crianças romenas institucionalizadas de até 42 meses de idade que posteriormente foram adotadas por famílias inglesas. As condições destas instituições variavam de ruim a “aterrorizantes”. As crianças permaneciam todo o tempo em “berços” improvisados com lona; eram lavadas com mangueiradas de água fria e praticamente não havia nenhuma espécie de brinquedos no local. Não lhes era dada quase que nenhuma atenção por parte dos escassos cuidadores e a alimentação era oferecida através de mamadeiras com grandes bicos, geralmente deixados automaticamente em posição desfavorável. Todas tinham um grau de desnutrição severa, com medidas bastante alteradas de peso, altura e circunferência cefálica. No momento da entrada para a adoção, mais da metade das crianças se encontravam abaixo do 3º percentil para peso. Três quintos delas encontravamse em funcionamento ao nível de profundo retardo. Para a avaliação, estas crianças foram divididas em 2 grupos: aquelas que foram adotadas até os seis meses de idade e aquelas que foram adotadas depois disso. Estes dois grupos foram comparados com um outro grupo de crianças adotadas, de origem inglesa. A grande maioria das crianças romenas havia entrado na instituição no período neonatal (média de idade à entrada = 0,34 meses). Somente 9% delas haviam recebido algum tipo de setting familiar.

Todos os grupos foram avaliados à entrada e posteriormente aos 4 e 6 anos de idade. A recuperação das variáveis físicas foi bastante satisfatória para todos os grupos. Entretanto, com relação à mensuração do desenvolvimento cognitivo e emocional, melhor recuperação foi verificada entre as crianças inglesas adotadas antes dos 6 meses de idade; aquelas que foram adotadas após os 6 meses demonstraram níveis bastante próximos aos apresentados pelas crianças romenas. Este estudo demonstrou, entre outras coisas, que os níveis de recuperação das crianças estavam muito mais intimamente correlacionados com a idade de entrada para a adoção (quanto mais jovens, maior a recuperação), do que com a origem ou situações vivenciadas previamente [3].

Num outro momento esta mesma equipe tenta avaliar separadamente variáveis específicas de certos domínios de funcionamento: problemas de relacionamento, desatenção/ hiperatividade, dificuldades emocionais (nos últimos 12 meses, chora ao chegar na escola ou se recusa a entrar; desiste fácil; frequentemente se parece preocupado, infeliz, assustado, estressado; medo por novas coisas/situações; queixas frequentes de dor), características autísticas, prejuízo cognitivo, dificuldades com os pares e problemas de conduta. Interessantemente as crianças romenas (quaisquer dos grupos) não foram diferentes das inglesas quando avaliadas aos 6 anos de idade quanto às variáveis problemas emocionais, dificuldade com os pares e desvios de conduta. De outro modo, apareceram como problemas fortemente associados à situação de privação a dificuldade de relacionamentos sociais, caracterizada principalmente por inadequação da abordagem ao outro e dificuldade em entender regras sociais ou respostas “esperadas”, desatenção/hiperatividade e características autísticas, estas duas últimas discutidas pelos autores como curiosamente as variáveis mais sabidamente influenciadas por fatores genéticos. Além disso, foi verificado que as características autísticas desta população, diferentemente das de um autista clássico, apresentaram melhora entre os 4 e os 6 anos de idade [4].

Os pesquisadores deste grupo concordam, após estudo minucioso destas crianças, que eventos negativos e prolongados nesta fase da vida estão associados com amplo espectro de transtornos psiquiátricos, mas não há específicos padrões psicopatológicos. O grau de resiliência observado foi surpreendente, mas especula-se, através de uma hipotética tendência linear, que as mudanças nos padrões de funcionamento em direção à normalidade poderiam diminuir progressivamente, quanto mais velha fosse a criança, ao final de sua profunda privação.

Corroborando de certa forma com esta linha de pensamentos/especulações e aparte algumas extrapolações teóricas, experimentos com ratos demonstraram que, ao serem submetidos a determinado isolamento social, estes ratos respondem com um maior retraimento e menor tendência à exploração do ambiente como um todo [5].

Em 1984 realizou-se o primeiro congresso sobre a criança abandonada (Zaragoza–Espanha). Neste foram discutidos aspectos ligados às consequências da vivência em orfanatos. Postulava-se haver uma deterioração progressiva do intelecto a partir dos seis meses de idade, bem como efeitos graves nas condutas infantis, que se manifestavam principalmente sob a forma de agressividade, infantilismo, inibição social e condutas autodestrutivas. Os fenômenos depressivos eram vistos como consequência da institucionalização e da carência afetiva. Trabalhos realizados nesta época demonstraram fortes correlações entre institucionalização e personalidade psicopática, psicose esquizofrênica, bem como diversas outras neuroses [6].

Realmente estas são questões bastante complexas e delicadas, pois se baseiam substancialmente na observação humana; dependem assim de quem olha, o que e como olha e por quê ou para quê… Fato é que a criança que cresce sem os olhos de uma mãe “saudável” terá alterações profundas, algumas irreversíveis, em seu psiquismo e na capacidade de estabelecer relacionamentos intra e interpessoais. Como descreve Lene Lier [7], a interação mãe-bebê proporcionará a este último, ferramentas que o viabilizarão adentrar no mundo das relações sociais. Este é seu primeiro treino e a mãe deve ser capaz de suportar isso. De outro modo, se a mãe não suporta (mãe psicótica, por exemplo) ou se não há mãe o bebê se fecha; não há nele o interesse em procurar os olhos do outro, em buscar a mãe. Geralmente estas crianças não gostam do contato físico e se interessam muito mais pela exploração de objetos inanimados; não “esperam” que a mãe (se é que eles as têm!) adivinhe e realize seus desejos. Suas atividades ganham uma qualidade “avital” e estereotipada.

Nell retrata um caso de melhor prognóstico, pois, embora não tenha podido desenvolver quando criança habilidades específicas para um relacionamento social mais adequado, teve o olhar da mãe neste início da vida, o que lhe propiciou a estruturação de funções bastante primitivas, porém fundamentais, tanto para sua estrutura bio-psíquica como para proporcionar-lhe a opção de trocar a proteção hospitalar pela exploração do imprevisível mundo, numa vida em liberdade.

Referências

1. Spitz R. O Estágio não-objetal. Em: A Constituição do Objeto Libidinal.p.27- 40.
2. Frith Uta. Lessons from the wild boy. In: Autism – Explainning the Enigma. British Library Cataloguing in Publication Data. 2nd ed. 1989. p.16-35.
3. Rutter M. and English and Romanian Adoptees (ERA) Study Team. Developmental Catch-up and Deficit, Following Adoption after Severe Global Early Privation. J Child Psychol Psychiat 1998;39(4):465-76.
4. Rutter ML, Kreppner JM, O’Connor TG. Specificity and Heterogeneity in Children’s Responses to Profound Institutional Privation. British Journal of Psychiatry 2001;179:97-103.
5. Ahmed SH, Stinus L, Le Moal M, Cador M. Social deprivation enhances the vulnerability of male Wistar rats to stressor and amphetamine induced behavioral sensitization. Psychopharmacology 1995;117:116-24.
6. Actas Del I Congresso Sobre El Niño Abandonado: El Abandono Y La Privacion Afectiva En El Niño – Catedra de Psiquiatria, Universidad de Zaragoza; 7 a 9 de noviembre de 1984.
7. Lier L. Mother-Infant Relationship in the First Year of Life. Acta Paediatrica Scandinavica 1988;77:31-42. 

Características inatas e adquiridas do psiquismo humano: uma análise do filme “Nell”
Classificado como: