Educação e neurociência

Pode-se dizer que cada pessoa constrói e vive uma “narrativa” e que a narrativa é a pessoa, sua identidade.(…) cada um de nós é uma biografia, uma história. Cada um de nós é uma narrativa singular que, de um modo contínuo, inconsciente, é construída por nós, por meio de nós e em nós – por meio de nossas percepções, sentimentos, pensamentos, ações e, não menos importante, por nosso discurso, por nossas narrativas faladas. Biologicamente, fisiologicamente, não somos muito diferentes uns dos outros: historicamente, como narrativas, cada um de nós é único.
Para sermos nós mesmos precisamos ter a nós mesmos, possuir se necessário repossuir, nossa história de vida. Precisamos “rememorar” a nós mesmos, rememorar o drama íntimo, a narrativa de nós mesmos. Um homem necessita dessa narrativa, uma narrativa íntima contínua, para manter sua identidade, seu eu.”1
Oliver Sacks fala da identidade, pensando na totalidade de ser humano, creio que ele não pensou em trazer esta reflexão para sala de aula, mas como ele mesmo escreve em outro capítulo do mesmo livro “Charcot e seus discípulos, entre os quais Freud e Babinski além de Tourette, estiveram entre os últimos de sua profissão a possuir uma visão conjunta de corpo e alma, “coisa” e “eu”, neurologia e psiquiatria”. Ele afirma que ocorreu uma “cisão entre neurologia sem alma e uma psicologia sem corpo”.2 Eu iria além, e diria que ocorreu uma cisão de homem, na medicina, na neurologia, na psicologia e na sala de aula. Vemos o homem em compartimentos, o osso do homem, o dente do homem, o cérebro dele e muitas vezes nos aproximamos de Picasso ao juntar este homem. Em sala de aula este homem, esta criança, vem com todas as partes, única, e com sua identidade em construção. Participamos desta construção ativamente e muitas vezes, patologizamos seu desenvolvimento. Estamos muitas vezes “encaminhando” para especialistas partes de nossas crianças porque não conseguimos vê-la como um todo, um todo com história passada e futura.
A Neurociência está reconstruindo o todo, através da necessidade de reunir saberes e olhares, ela está unindo este homem, esta criança. Para a sala de aula, para a educação, a Neurociência é e será uma grande aliada para identificar cada ser humano, como único e para descobrirmos a regularidade, o desenvolvimento, o tempo de cada um. Segundo o professor Prigenzi, a Neurociência trabalha nas interfaces.3 Suzana Herculano-Houzel faz isto brilhantemente no livro Cérebro em transformação, ela une o adolescente. Mostra porque certas coisas acontecem com o adolescente, as mudanças ocorridas no cérebro e no corpo dele.4 Ou seja, ao professor de adolescente, ao pai de adolescente, ao médico de adolescente e ao adulto que não se entendeu como adolescente, é uma leitura obrigatória, para buscar sua identidade, a compreensão do seu eu e do eu do outro.
Percebo nestes anos de prática em escolas, que cada vez mais nos importamos com o método, com o livro, com o conteúdo e esquecemos de “ver” este aluno. Reclama-se da dispersão, da bagunça, da indisciplina, da falta de aplicação dos estudantes. Não são poucos os que usam o argumento do “antigamente era diferente”. Também acho que era, mas independente do método, do livro, do número de alunos, algumas escolas e alguns professores ainda enxergam este aluno e conseguem lhe dar significado e identidade.
Lembro de um crime cometido por dois assaltantes a um ator global numa estrada, eles, quando foram pegos disseram: “Não sabíamos que era ele”. Quer dizer que se aquele ator, tivesse uma identidade para aqueles assaltantes, talvez eles não atirassem!
Quantas vezes, após ouvirmos o relato de uma mãe, sobre o que a criança está passando, nos pegamos entendendo as atitudes desta criança na sala de aula. Identificar cada aluno e compreender seu desenvolvimento é essencial, muito mais essencial que o método utilizado pela escola X e Y. Esta compreensão de cada aluno faz com que possamos utilizar estratégias diferenciadas para chegar ao nosso objetivo. Hoje, em sala de aula temos vários “diagnósticos”. O que fazemos com estes diagnósticos na prática educativa? Vejo uma dezena de professoras que não sabe traduzí-los para a sala de aula. Elvira Souza Lima, dá dicas preciosas para nossa prática, ela traduz não só os diagnósticos, mas o desenvolvimento de cada faixa etária e aplica na estratégia que pode ser utilizada.
A Neurociência, a multidisciplinariedade não vem com “receitas de bolo”, mas ensina a olhar e adaptar estratégias diferenciadas para conclusão de nossos objetivos. Em qualquer classe devemos usar múltiplas estratégias, estímulos visuais, auditivos, táteis, senso de humor e afetividade e quanto mais diversidade de estratégias, mais certeza de que nossa mensagem, nosso conteúdo chegue a todos. Afinal, o que o cérebro faz melhor é aprender, o cérebro se auto-renova a cada estímulo, experiência ou comportamento5, sua função é otimizar comportamentos, usando informações recebidas com eficiência, para isso ensinamos e para isso a escola existe. Para outras espécies, o processo de aprendizagem é lento e leva gerações para reestruturar o padrão de conexões geneticamente codificado, mas o homem tem um processo ativo de reescultura neural e as mudanças e os processamentos de memória podem ocorrer quase que instantaneamente.6 O objetivo desta diferença nos homens e nos animais é a mesma: a sobrevivência da espécie.
A Neurociência, traz para a sala de aula o conhecimento sobre a memória, o esquecimento7, o tempo, o sono, a atenção, o medo, o humor, a afetividade,o movimento, os sentidos, a linguagem, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o “como” o conhecimento é incorporado em representações dispositivas8, as imagens que formam o pensamento9, o próprio desenvolvimento infantil e diferenças básicas nos processos cerebrais da infância, e tudo isto torna-se subsídio interessante e imprescindível para nossa compreensão e ação pedagógica. Os neurônios espelho, que possibilitam a espécie humana progressos na comunicação, compreensão e no aprendizado. A plasticidade cerebral, ou seja, o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a mudar, até à senilidade ou à morte também altera nossa visão de aprendizagem e educação. Ela nos faz rever o –fracasso– e as –dificuldades de aprendizagem–, pois existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do nascimento até a morte. Nossa prática na inclusão de alunos com necessidades especiais, já sinaliza que não temos como afirmar até que ponto cada um deles pode chegar. Notamos que modificando estratégias de ensino os alunos alcançam os objetivos propostos.

Existem muitos estudos e pesquisas sendo realizadas com o objetivo de compreender os processos neurológicos que envolvem a aprendizagem. “Na realidade, quanto melhor entendermos o cérebro, melhor o poderemos educar”10. Atualmente sabe-se que existem períodos mais receptivos, quando o cérebro acolhe melhor certos estímulos e mostra-se mais apto a assimilar conhecimento. A neurociência será um poderoso auxiliar na compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana.11 Para tanto buscamos na multidisciplinaridade a parceria necessária. A prática docente sempre se valeu de contribuições de psicólogos, biólogos, filósofos e médicos, dos quais podemos citar, entre outros: Ferreiro, Dewey, Piaget, Decroly, Montessori, Froebel, Rousseau e Wallon. Produzir uma ponte entre questões pedagógicas com a contribuição de profissionais de outras áreas deve ser a intenção de quem quer conhecer seu aluno. Na PUC-SP, sob a coordenação da professora Maria Anita Viviani Martins12, há um grupo de Pesquisa multidisciplinar e interinstitucional formado por pedagogos, psicopedagogos, psicólogos e médicos, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre Alfabetização. Este grupo tem a intenção de delimitar algumas convergências da neurociência cognitiva e a aprendizagem da leitura e escrita, analisando elementos explicativos que possam levar a uma melhor compreensão da ação de alfabetizar.
A Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OECD), no livro “Compreendendo o cérebro”, sugere a promoção de relações transdisciplinares e o investimento em pesquisas transdisciplinares e reconhece a emergência de criar uma nova ciência de aprendizagem, além da necessidade de desenvolver “instituições de ciência de aprendizagem”.
A influência da Neurociência na nossa prática educacional irá fortalecer estratégias já utilizadas em sala de aula, além de sugerir novas formas de ensinar. O conhecimento sobre o neurodesenvolvimento e as funções executivas pode nos auxiliar com subsídios práticos e teóricos não só para as inclusões presentes na escola, mas no ensino e aprendizagem de todos os alunos. Acredito que tudo isto vai auxiliar a Pedagogia nas relações de professores, pais e alunos com o aprendizado. “Os alunos de hoje merecem uma educação exemplar baseada na atual investigação sobre o cérebro. Isto não pretende sugerir que tudo o que os professores e as escolas fizeram até aqui estava errado, mas sim, que temos uma nova informação, baseada no própria biologia da aprendizagem do cérebro, que pode melhorar a educação.”13
Voltando a Oliver Sacks ele afirma que o desafio terapêutico pode ser sintetizado por “Apenas conecte”14, e esta conexão é objetivo de todo professor, conectar seu aluno ao que está sendo estudado, ao mundo.
Conhecer nosso aluno e proporcionar-lhe que se reconheça a cada momento, talvez não seja tarefa fácil, mas acredito que muitos professores são autores e atores nas vidas de seus alunos e conseguem fazer esta conexão.

1 Sacks, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. São Paulo: Cia das Letras; 1997. P.128-9
2 Id., p.109.
3 Professor do grupo de estudo sobre Educação e Neurociência na Escola do Futuro da USP-SP
4 Herculano-Houzel, Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva; 2005.
5 Jensen, Eric. O cérebro, a bioquímica e as aprendizagens. Um guia para pais e educadores. Edições ASA.2002. p.29.
6 McCrone, John. Como o cérebro funciona.São Paulo: PubliFolha, 2002. p. 26.
7 Izquierdo, Ivan. Memória. Artmed; 2002. p. 89
8 Damásio, Antonio. O Erro de Descartes. Cia. da Letras; 1996, p.132
9 Id., p.134
10 Wolfe, Patrícia. A importância do cérebro. Porto Editora; 2006. p.6
11 OECD, Compreendendo o cérebro. SENAC, 2003. p.1147 a 159
12 www.pedagogianeurocientifica.com.br
13 Erlauder, Laura. Práticas pedagógicas compatíveis com o cérebro.Edições ASA,2005 p. 155
14 Sacks, Oliver O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, capítulo X II p.133. São Paulo.Cia das Letras,1997

Educação e neurociência
Classificado como: