Essa tal de neurociência é o maior barato

Rafael Lima

“A linguagem é um vírus”
–William S. Burroughs



“An idea is something you have;
an ideology is something that has you.”
–Morris Berman

“Você devia ler sobre memes”, foi o que aquele-amigo-que-não-tem-prenome-conhecido disse lá pelas tantas, no papo melhor estilo cabeça que levávamos por e-mail. Fiquei na pior; nunca tinha ouvido falar emmemes. Mas dizem que a informação é livre e a internet é a maior prova disso, então, roído de curiosidade, fui ao pai dos burros virtual ver qual era. Não foi epifania, mas decididamente, uma daquelas descobertas em que se empacota um enorme feixe de neurônios, como se eu zipasse parte da minha memória, abrindo espaço para a entrada de mais informação nova.

Meme (pronúncia aportuguesada: mime), na melhor definição que eu encontrei, é “um padrão de informação que pode infectar parasiticamente a sua mente e alterar o seu comportamento, te fazendo querer expor essa idéia aos seus amigos, expondo-os, assim, ao vírus-idéia. Memes típicos incluem slogans individuais, idéias, frases de efeito, melodias, ícones, invenções e modas.” Não é preciso que mais do que isso para admirar o inusitado do conceito biológico – o vírus – aplicado ao campo das ciências humanas. O tipo de ficha que quando cai, nos deixa com cara de besta,“como é que eu não pensei nisso antes?”. Não parece razoável entender um slogan em termos de sua capacidade de infecção mental, ou uma música, pela sua capacidade de disseminação? Não parece estranho quando forma-se uma fila do nada, na rua, apenas porque alguém disse que alguma coisa seria distribuída, mesmo sem ter garantias do que?

Tudo que um publicitário mais quer da vida é fazer de seus slogans grudentos memes: “a número um”, “as amarelinhas”, “pipoca e guaraná”. Tudo que um compositor pop, que escreva trilhas sonoras para novela das 8, quer é fazer de suas músicas autênticos memes, assobiáveis comoDon’t worry, be happy de Bobby McFerrin. Tudo que um estilista, ainda que dos mais elitistas, quer é que seus modelos – calças boca de sino, estampas religiosas, decote em V – invadam as vitrines e se espalhem pelas ruas como uma praga de gafanhotos, como um vírus de alto poder de infecção, como um… meme. Quem aí não se lembra da imensa coleção de memes-bordões criada por Max Nunes para os programas humorísticos de Jô Soares, que punham a cidade toda a repetir por aí: mui amigo, tem pai que é cego, Batista, cala a boca!, chose de loc, e por aí a fora. Como entender que um boneco horrível como o Mug tenha vendido tanto no final dos anos 60? Teria sido só a propaganda do Simonal? Um meme. Um potentíssimamente infeccioso meme.

A palavra meme foi introduzida no livro O Gene Egoísta pelo zoologistaRichard Dawkins em 1976. Fundamentalista da linha darwiniana, Dawkins fez do último capítulo de seu primeiro livro um salto sem rede – não é todo autor estreante que sai propondo uma teoria nova & revolucionária logo de cara. No ensaio Viruses of the Mind, Dick Dawkins utiliza os vírus de computador (Dawkins conhece informática e escreveu uma série de programas no curso de seus estudos) para elaborar um modelo deepidemiologia informática, demonstrando como a mente poderia ser infectada por certos padrões de informação. Esses padrões, os memes(neologismo derivado de “memory” e de “même”), seriam replicantes parasitas, “devendo ser vistos como estruturas vivas, não apenas metaforicamente mas tecnicamente”, capazes de “parasitar meu cérebro, tornando-o um veículo para a propagação dos memes do mesmo modo que um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira”, de acordo com o professor N.K. Humphrey, ao se valerem de 2 qualidades presentes tanto nas células (em parasitas de DNA), quanto nos computadores (para vírus de computador) ou cérebros (para memes):“a prontidão reproduzir precisamente informação, talvez com alguns erros que serão reproduzidos com precisão subseqüentemente, e a prontidão para obedecer instruções decodificadas na informação ora reproduzida.” A analogia do vírus, como se vê, é mais sofisticada do que pode aparentar.

No final das contas, com os memes, Dawkins propõe que a teoria da evolução darwinista também poderia ser aplicada às informações. Assim como os genes, os memes seriam unidades fundamentais que alavancaram a evolução da vida pela capacidade de gerar cópias fiéis de si mesmo, com altas taxas de reprodução e longevidade. A seleção natural, por sua vez, beneficiaria memes mais fáceis de se compreender, lembrar e comunicar. Tudo muito bom, mas a tese de Dastardly Dick tem conseqüências incríveis: ao propor que, assim como um vírus precisa roubar DNA de bactérias para se reproduzir, as idéias precisam de… bem, precisam de homo sapiens sapiens, bípedes implumes, gente, para se reproduzir, não há como não ser tomado por um certo horror ao se olhar no espelho e constatar que esse rostinho lindo foi apenas um mecanismo extremamente sofisticado (um “fenótipo estendido”) resultante da interação entre genes e memes desde os primeiros tempos, até chegar no estado de sofisticação atual (sem risos, por favor). Um vetor. Meio que nem o mosquito Aedes aegypti funciona para a dengue, para ficar num símile atual.

Parece ruim? Não, é só a sensação de mal estar que pinta toda vez que a gente se depara com uma tese que tira o ser humano de seu papel de maior invenção do mundo… Mas apertem os cintos, que o mal estar não acaba aqui. O principal exemplo que Dirty Dick usa para explicar sua tese em Viruses of the Mind é o da religião, segundo ele, o perfeito exemplo de vírus que se disseminou com resultados negativos (o comentário de Dawkins ao atentado de 11 de setembro podia ser resumido na seguinte legenda de cartum: “Eu disse que esse negócio de religião era uma péssima idéia!”) pelos séculos e séculos. Quer dizer, Dastardly Dick não hesita em abrir fogo cerrado contra a igreja – eu disse igreja? Pois troca aí por toda a Igreja Católica, mais a Tradição muçulmana, mais o Hinduísmo, mais os kamikazes do xintoísmo, mais judaísmo… bom, contra todas as instituições religiosas juntas – no processo de comprovar sua teoria, ao mostrar que religião é tão somente mais um tipo de meme, com fortíssimo potencial de sobrevivência e contaminação. Vejam o filme Inherit the Wind, aquilo aconteceu de verdade, e imaginem aí a dor de cabeça que ele deve ter tido só com os creacionistas. Não é à toa que, num de seus momentos de menos paciência, Dawkins disse que você pode discutir tudo com qualquer um — menos religião.

O estudo dos memes acabou por inaugurar uma ciência nova, a memética, ainda nascente enquanto digito essas linhas. Cientistas como Daniel Dennet eSusan Blackmore levaram a hipótese inicial de Dawkins adiante em seus livros. Mas o estudo memético não se resume ao campo da biologia, ou melhor, da sociobiologia, terreno onde Edward O. Wilson fincou sua bandeira. Na verdade, envolve conhecimentos de Linguística, História, teoria da Comunicação, Marketing, e aí por diante, ao tratar globalmente do mecanismo de propagação de idéias. E isso não é algo que interessa apenas a biólogos, mas a publicitários, e a gente como Seth Godin ou Hernani Dimantas, se ficarmos apenas nos teóricos. No terreno da comunicação, Cláudio Júlio Tognolli acabou endereçando a memética em seu livro sobre chavões de jornalismo – afinal, o que são lugares-comunssenão memes de sobrevivência extraordinária? Porque algo que sempre me intrigou foi a capacidade que certas pessoas têm de agregarem em torno de si um potencial enorme de lendas. Veja-se como exemplo o livroEla é Carioca, de Ruy Castro: o que existe ali é uma verdadeira mitologia de Ipanema em um certo período; são todos personagens ao mesmo tempo atratores e geradores de histórias, idéias e frases que deram vazão a uma onda de valores muito coesa ao longo do tempo, cujo impacto se percebe claramente hoje. A memética ajudaria a compreender o surgimento e o comportamento histórico desses fenômenos.

Por isso a importância da teoria de Richard Dawkins: confirmando-se todas as hipóteses, e em combinação com a sociobiologia de Wilson, amemética permitiria determinar a complexidade do comportamento humano, com as atuais Ciências Humanas (História, Sociologia, Antropologia) convertendo-se, afinal, em subgrupos da Biologia. Tom Wolfe explica brilhantemente o que aconteceria em ensaio de seu último livro, Ficar ou não Ficar, já resenhado no Digestivo Cultural: tudo se torna determinístico. Nada depende do meio externo.

Para quem não entendeu nada dos últimos 2 parágrafos, na prática o que rola é que as reações de um certo subgrupo urbano a um anúncio de televisão, a resposta daquela morena espetacular às suas cantadas poéticas, até o sucesso de um compacto com a última novidade do brit-pop, tudo passa a ser calculável graças à sociobiologia. Mas não é preciso ficar preocupado, por enquanto: nenhum cientista conseguiu até hoje medir, ou ao menos ver, manifestações dos memes num cérebro humano. Não há provas de que eles sequer existem. Mas leitor, não ache que está livre: se, ao longo deste texto, você considerou a possibilidade das idéias se comportarem como vírus, ficou profundamente intrigado com a semelhança entre a maneira que idéias se propagam e a disseminação de um vírus, ou se assustou ao constatar que você mesmo já tinha sido infectado por uma série de padrões de vestir, falar ou pensar ao longo da vida, quase se convencendo que memes realmente existem, não se espante – você acabou de ser infectado pelo meme meme, ou meta-meme

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