Igualdade de gênero no sistema nervoso

Pois saiba que não é bem assim. Todas as evidências obtidas nos últimos anos pelos neurocientistas convergem para a constatação de que as células da glia não exercem mais o papel de “donas de casa”, como as mulheres de antigamente. Fazem dupla jornada, como as de hoje.

A foto acima mostra uma multidão de fibras nervosas do córtex cerebral corada em azul e, bem no meio, uma célula glial, corada em amarelo. Figura modificada de Paukert e Bergles (2006) Current Opinion in Neurobiology , vol. 16, pp. 515-521.

O coletivo glia foi criado ainda no século 19 para descrever a “cola neural” (semelhante a glue , em inglês), isto é, a substância que se acreditava amorfa, posicionada entre os neurônios para mantê-los na sua posição. Logo se revelou que a glia era formada por células, mas durante um século se achou que elas desempenhavam apenas funções de apoio, nutricionais e estruturais.

No final do século 20 a situação começou a mudar. Emergiu entre os neurocientistas um “movimento de libertação” das células da glia: os experimentos foram mostrando uma infinidade de funções que elas exercem no sistema nervoso: cuidam da defesa contra microrganismos e lesões de várias estirpes, produzindo reações inflamatórias como faz o sistema imunitário no resto do organismo; regulam o suprimento sangüíneo dos locais com maior atividade funcional; funcionam como células-tronco em alguns locais específicos; capturam os aminoácidos excitatórios em excesso, prevenindo a ocorrência de toxicidade sobre os neurônios; ajudam a posicionar os neurônios durante o desenvolvimento e a orientar as fibras nervosas a achar os alvos certos; e muito mais.
Uma avaliação ligeira da literatura científica até 2006 indica cerca de 25 funções diferentes exercidas por essa comunidade operosa de células neurais, o que abala bastante o dogma da glia como cola, como suporte, infra-estrutura. No entanto, falta o tiro de misericórdia: quebrar a noção de que os neurônios são as únicas células inteligentes do sistema nervoso. Quer dizer, faltava.

Neurônios inteligentes, gliócitos também
Um dado intrigante chamou a atenção de diferentes grupos de pesquisadores, entre os quais o grupo liderado por Vivaldo Moura-Neto e Antonio Carlos Campos de Carvalho, respectivamente do Instituto de Ciências Biomédicas e do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles puderam comprovar que os neurônios conversavam com as células gliais através de contatos especiais chamados junções comunicantes, transmitindo uns aos outros sinais elétricos e químicos. As células gliais não eram apenas donas de casa, conversavam de igual para igual com os “chefes da família”, os neurônios.
Mas as células gliais permanecem menos iguais que os neurônios, como diria o escritor inglês George Orwell, porque a conversa através das junções comunicantes não tem a mesma sofisticação que a comunicação por meio das sinapses.

Tirada ao microscópio eletrônico, a foto acima mostra um pequeno segmento da célula glial (que aparece escuro) recebendo uma sinapse (apontada pela seta) formada pelo   neurônio b. Figura modificada de Bergles e colaboradores (2000) Nature , vol. 405, pp. 187-191.

O século 21 trouxe a libertação da célula glial. O grupo de Dwight Bergles, na Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos, combinando experimentos de microfarmacologia com observações de microscopia óptica e eletrônica, descobriu que alguns tipos gliais recebem sinapses de fibras nervosas, ou seja, de neurônios. Essas sinapses neuro-gliais podem ser excitatórias ou inibitórias, o que significa que apresentam a mesma capacidade lógica das sinapses neuro-neuro. Além disso, funcionam semelhantemente a estas últimas, empregando neurotransmissores armazenados em pequenas vesículas, expressando moléculas receptoras capazes de reconhecer especificamente os neurotransmissores e produzindo sinais químicos com conteúdo informacional comprovado.
O conceito que emergiu dessas descobertas é que o sistema nervoso é formado por uma rede polivalente de neurônios e células gliais, dotada de potente capacidade de processamento de informação e ainda de plasticidade, ou seja, capacidade de se adaptar às mudanças impostas pelo ambiente externo.

Nada mais compatível com os tempos da modernidade: igualdade de gênero também no sistema nervoso. Mas ainda resta algo a conquistar: diferentemente dos neurônios, as células gliais até o momento se mostram incapazes de gerar sinais elétricos, os impulsos nervosos de condução rápida que constituem as unidades de código da linguagem do cérebro. Conseguirão os neurocientistas chegar ao limite da inclusão?

SUGESTÕES PARA LEITURA
– M.M. Fróes e colaboradores (1999) Gapjunctional coupling between neurons and astrocytes in primary central nervous system cultures. Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA , vol. 96, pp. 7541-7546.
– D.E. Bergles e colaboradores (2000) Glutamatergic synapses on oligodendrocyte precursor cells in the hippocampus. Nature , vol. 405, pp. 187-191.
– S.C. Lin e colaboradores (2005) Climbing fiber innervation of NG2-expressing glia in the mammalian cerebellum. Neuron , vol. 46, pp. 773-785.
– M. Paukert e D.E. Bergles (2006) Synapse communication between neurons and NG2+ cells. Current Opinion in Neurobiology , vol. 16, pp. 515-521.

Roberto Lent
Professor de Neurociência
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro
29/12/2006

http://cienciahoje.uol.com.br/64478

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