Introspecção e a neurociência da linguagem: duas práticas bem afinadas

Apesar de sabermos que a linguagem é gerada no cérebro, o conhecimento sobre esta tarefa cognitiva vem sendo revelado e atualizado, em larga medida, pelo exercício de introspecção do lingüista sobre a sua própria competência de falante nativo.
A prática de pensar com método sobre a própria fala não pode ser considerada enviesada, como seria a análise de um psicólogo sobre alguma característica da sua própria psique. Ao analisar introspectivamente a frase que ele próprio gerou, o lingüista não tem nada a dizer sobre por que ele as gerou. A intencionacionalidade deve ser entendida como um módulo cognitivo separado do módulo da linguagem. Ao lingüista cabe analisar somente as computações dedicadas à linguagem, que são inconscientes, automáticas e encapsuladas.
Nos anos 50, o lingüista Noam Chomsky fez uma análise introspectiva das computações que necessariamente estariam envolvidas nas sentenças com verbos transitivos diretos, como quebrar nas sentenças (1) e (2):

(1) O menino quebrou o vaso.
(2) O menino quebrou a perna.

Examinando o vaso e a perna, que são objetos diretos (complementos) do verbo quebrar, Chomsky percebeu que as funções semânticas destes complementos, tecnicamente chamadas de papéis temáticos, são definidas pelo verbo. O verbo quebrar especifica que seu complemento será interpretado como algo que muda de estado íntegro para quebrado. Os complementos o vaso e a perna se prestam para satisfazer esta exigência do verbo, pois representam objetos físicos que podem facilmente passar por esta mudança. Ainda que tivéssemos complementos menos apropriados para assumir este papel temático, faríamos manobras de ajuste coercitivo para encaixar a semântica do complemento a esta “camisa de força” de significado imposta por cada acepção do verbo1. Assim,
(3) João quebrou o meu dia.

encontra alguma interpretação semântica compatível com as necessidades eventivas do verbo quebrar, do tipo “João fez com que o meu dia, que seria inteiramente dedicado a uma certa atividade A, fosse dividido entre a atividade A, que provavelmente seria mais importante, e a atividade B, que não me agrada tanto”.
Mas, faça agora uma introspecção e veja se esta imposição do verbo em relação ao complemento também se estende a  o menino, sujeito das frases (1) e (2). É bastante fácil perceber que em (1) a expressão o menino se refere à pessoa que executa a ação de quebrar, e por isso dizemos que tem o papel temático de agente. Em contraste, em (2) essa expressão se refere à entidade que é paciente da ação, e por isso ganha o papel temático de paciente.
E assim, a análise se aprofunda: se (1) e (2) são exatamente iguais até a chegada do objeto direto, podemos supor que o que define o papel temático do sujeito o menino é a informação semântica que está no complexo verbo-objeto.
A conseqüência espetacular destas simples observações de Chomsky é que, independentemente da ordem básica dos constituintes da sentença em uma dada língua  –  SVO, (sujeito, verbo, objeto) como no português; VSO, como no Árabe; VOS, como em Malagasi, OSV, como Xavante  –  para gerar ou processar uma sentença, primeiro fazemos a concatenação verbo-objeto (VO) e só depois concatenamos o sujeito ao composto VO. Este mecanismo de geração de sentenças é conhecido como derivação no sentido bottom-up, ou seja, de baixo para cima se considerarmos uma estrutura representacional em forma de árvore, ou da direita para a esquerda, se pensarmos na ordem da escrita das línguas ocidentais, por exemplo.
Então, nas línguas em que a ordem linear é SVO, como o português, para podermos interpretar semanticamente o sujeito de uma sentença, temos que computá-lo e guardá-lo na memória de trabalho, para depois juntá-lo ao composto verbo-objeto, que vai definir seu papel temático.
Na Lingüística, a informação de que o curso da derivação sintática é bottom-up,  observada a partir de um vasto número de línguas, já está disponível há meio século. As evidências neurofisiológicas demoraram um pouco mais a chegar e vieram no bojo de uma literatura especializada que começou a se formar nos Estados Unidos e Europa a partir dos anos 90.
Em grande parte são estudos que  utilizam a técnica de extração de potenciais relacionados a eventos lingüísticos (ERPs) para analisar a concatenação de verbo-objeto. Manipulações de congruência nesta concatenação, do tipo João esticou a geladeira, foram amplamente relacionadas a maiores amplitudes de um potencial negativo aos 400 ms pós-estímulo  –  o N400.
Além da cognição de verbo-objeto tivemos aqui no Brasil uma primeira evidência neurofisiológica do curso derivacional bottom-up a partir de Lage (2005), em uma tese de Doutorado orientada pelos Professores Miriam Lemle, do Departamento de Lingüística da UFRJ, e Antonio Fernando Catelli Infantosi, do Programa de Engenharia Biomédica da COPPE/UFRJ. Esta tese é intitulada Aspectos neurofisiológicos de concatenação e idiomaticidade em português do Brasil: um estudo de potenciais bioelétricos relacionados a eventos lingüísticos (ERPs) e foi indicada pela Faculdade de Letras da UFRJ para concorrer ao Prêmio CAPES de Teses 2006.
No experimento principal, foi utilizada a técnica de extração de potencial relacionado a evento (event-related brain potential). O EEG bruto de voluntários era registrado enquanto eles eram estimulados linguisticamente através da apresentação de sentenças na tela do computador,  palavra por palavra. Cada palavra permanecia na tela por 200 ms, e ao final da sentença era pedido que o voluntário opinasse, através do acionamento de um botão, se a sentença era congruente ou incongruente. A autora manipulou a congruência de sujeitos em sentenças dos tipos que se seguem, estabelecendo como tempo zero (gatilho para a aquisição dos sinais) o início da apresentação do nome que é complemento do verbo:

(4) A cadeira chutou a bola.
(5) O menino chutou a bola.

O momento em que os sinais elétricos começaram a ser registrados (gatilho) correspondeu ao início da aparição do núcleo do complemento(bola).

Os traçados dos ERPs extraídos do EEG mostraram ondas negativas aos 450 ms. Estas ondas correspondem à concatenação verbo-objeto, chutou a bola, e são compatíveis com os achados clássicos na literatura de N400. Como em (4) e em (5) esta concatenação é congruente, as respostas corticais foram negatividades com elevação discreta.
Porém, aproximadamente aos 700 ms, surgem outras negatividades. Estas ondas tinham amplitude muito maior quando provenientes de sentenças incongruentes como em (4), ou seja, aquelas em que a escolha do sujeito que não satisfaz exigências semânticas do predicado torna a sentença incongruente. Assim, a computação tardia do sujeito, há 50 anos já descrita por Chomsky, pôde ser revelada eletrofisiologicamente: um N700, sensível à incongruência e subseqüente ao N400 da concatenação verbo-objeto.
Além da confirmação neurofisiológica do curso das computações lingüísticas, Lage (2005) traz uma novidade. Aos 200ms após a exibição do objeto, aparecem ondas negativas com maior amplitude quando decorrentes de frases incongruentes. A autora interpreta esta negatividade aos 200ms como uma compatibilização semântica  precária entre a semântica do sujeito e a do verbo. Isto acontece porque para que possa ser guardado na memória de trabalho, o sujeito é acessado em seus traços semânticos mais primitivos. E a partir destes traços já existe uma tentativa de compatibilização semântica com o verbo. Mas a computação da integração sintática só acontece depois, aos 700 ms. Ou seja, a autora pôde observar efeitos sutis de dois estágios da integração do sujeito.
Seguindo as pistas da argumentação da teoria lingüística, baseada em dados introspectivos, a Neurociência da Linguagem no Brasil marcou um ponto relevante no entendimento sobre o curso das concatenações entre sujeito, verbo e objeto.

1 Note que no caso de um verbo transitivo ter mais de uma acepção, como em (a) Ela assinou o Globo, e (b)  Ela assinou a carta, cada leitura do verbo impõe seu próprio papel temático. Assinar na acepção de “obter a assinatura de um periódico” impõe ao argumento interno, o periódico, o papel temático de “lugar de onde”, isto é, a partir de onde a assinatura inscrita autoriza a entrega do periódico a quem depositou a assinatura, enquanto assinar na acepção de “escrever o próprio nome em” impõe o papel temático de “lugar onde”, ou seja, lugar onde a assinatura foi inscrita.

França, A.I A introspecção e a Neurociência da Linguagem: duas práticas bem afinadas.Revista de Neurociências (0104-3579) n.3 v3. pp135-139, Atlantica Editora, Rio de Janeiro, 2006.

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