Ok. Agora é oficial. Ler este artigo me deixou com vergonha de usar o termo Neuro. Aí me lembrei que faço isso desde 1985 e respirei de novo.

É isso que me preocupa e entristece, sabem? Esse descarrego de raiva em cima da coisa ao invés de de quem usa a coisa. Faca é boa ou faca é ruim? Sei lá. Ambos. Depende de quem a manipula. Ou não?

Outra tristeza que sinto, não raiva, tristeza mesmo: Não dá pra contestar nem contra-argumentar com este artigo. EU sinto isso na pele atualmente. Um profundo desapontamento com o fato de ter que ficar driblando o mercado, pedindo quase desculpas por trabalhar baseada em neurociências, tentando fazer com que quem me contrata acredite que eu estudo isso à exaustão há quase 3 décadas, que pago (e caro) por cursos, livros e revistas (não a super-interessante; a Neurociências) pra me manter atualizada; up to date.

Ô vida dura. Quando comecei e ninguém falava no assunto, eu tinha que tourear a ignorância total sobre o assunto. Hoje, que eu já poderia (e esperava) estar colhendo os frutos de anos de estudo (que não acabaram nem acabarão in my lifetime enquanto meu objeto de interesse for o cérebro e o sistema nervoso) é convencer os clientes de que eu não engrosso as fileiras do neuro-palito-de-dente, que trabalho apenas com os núcleos duros (Psicologia, Negócios, Alimentação e Aprendizagem) e não sou pseudo-intelectual; eu estudo MESMO! Faço cursos MESMO! Leio livros MESMO! E publicações especializadas e sérias.

Deixa pra lá. Leiam o artigo e, daí em diante o que sobra é o que faço: Orai e vigiai. Pra quê? Pra escapar dos neurocascateiros, seja na forma de fornecedores (livros, revistas e cursos), seja na forma de parceiros (Pior ainda!)

Boa Leitura!

Inês Cozzo

 

O ano da neurocascata

SÉRGIO AUGUSTO

Em 2012 a palavra do ano foi menos que um vocábulo, foi um prefixo: neuro. Usado e abusado em várias línguas, não se ateve a identificar a ciência que estuda a anatomia e a fisiologia do cérebro humano e o funcionamento do sistema nervoso – neurociência – mas também uma infinidade de atividades presumidamente científicas ou humanísticas e outras nem tanto. 2012 foi o ano do neuroisso, do neuroaquilo, do neurotudo e, em última instância, do neuronada.

Tinham outro objetivo os que fizeram a revolução cognitiva, no final dos anos 1950. O pior é que a neuromania, asseguram os que monitoram o fenômeno desde o início do milênio, não tem prazo para nos deixar em paz. Nem a nós nem à ciência.

Em sua primeira dentição, a neuromania inspirou a expressão “é cuca”, aplicada a qualquer sintoma ou distúrbio de origem nebulosa, mesmo aqueles com pouca possibilidade de terem sido causados por problemas de natureza psicológica. Quase ninguém mais diz “é cuca”, nem sequer “é psicossomático”, mas ainda é na cabeça que quase tudo começa e se resolve, na opinião – vale dizer, na cabeça – de muita gente.

Sofisticou-se o linguajar, especificou-se o diagnóstico: agora sofremos de alguma síndrome (do pânico, a mais comum), da falta (ou excesso) de dopamina, de disfunções que nem de nome conhecíamos até algum tempo atrás. Fala-se em neurônio, sinapse e córtex pré-frontal quase com a mesma intimidade com que desde sempre nos referimos às artérias e ao esôfago. Não precisamos esperar que glia, dendrito e axônio caiam na boca do povo para reconhecer, penhorados, que a popularização da neurociência ampliou tremendamente nossa cultura biológica.

O preço pago por esse enriquecimento vocabular e patológico foi alto demais. Como o marxismo, o freudianismo, a Teoria Crítica e outras visões totalizantes, a neurociência virou o século submetida a abusivas simplificações e aplicações levianas. Vulgarizada para consumo e consolo das massas, a neurociência pop tornou-se uma pestilência intelectual, um engana-trouxa de jaleco a oferecer ensinamentos, no mínimo, discutíveis sobre certas funções orgânicas e determinados processos mentais e soluções para uma infinidade de problemas – dos cognitivos aos emocionais, dos políticos aos econômicos.

Se ainda não ouviu falar em neuroeconomia, neuropolítica, neuroteologia, neurogastronomia, neurocrítica literária, neurodireito, neuroestética, neuromagia, neuromarketing, prepare-se. São o que você imagina, e igualmente dotadas de impositivas imagens por ressonância magnética ou de tomografia axial computadorizada. Como resistir à impressionante visão de um cérebro com aquelas manchas vermelhas, amarelas e verdes excitadas por impulsos nervosos?

“This is your brain…” (É assim o seu cérebro…) virou um meme editorial, um abracadabra para o que sucede em nossa cuca quando estamos felizes, nos apaixonamos, ouvimos música, comemos carboidratos, negociamos ações na bolsa e duvidamos da ressurreição de Lázaro. A dupla Earl Henslin-Daniel Amien fatura horrores nesse ramo de neurocascata. Outros incansáveis praticantes: Louis J. Cozolino, “inventor” da neurociência das relações humanas, e John B. Arden, que tem uma receita neoestoica para “modificar e melhorar” nossa massa cinzenta.

Com o prefixo neuro alçado a padrão ouro da exegese e da autoajuda, as prateleiras das livrarias se abarrotaram de obras que tentam dar respostas até a questões fora da alçada da neurociência ou compartilhadas com a psicologia e outros consolidados ramos do conhecimento. Não há muito mistério: desenvolva uma desconfiança comportamental ou psicossocial sob a forma de tese, busque alguns exemplos que a sancionem, ainda que só parcialmente, enfeite o texto com lantejoulas neurológicas (dopamina, oxitocina, ínsula, glândula pineal, etc.), e pronto – está feita a sua neurobobagem.

Em julho deste ano, Elaine Fox pôs na praça “a nova ciência do otimismo”, dividindo o cérebro – que sabemos dotado de dois hemisférios: o esquerdo, responsável pelo pensamento lógico, o direito, pelo pensamento simbólico – em dois hemisférios metafóricos: de um lado, o “chuvoso” (rainy brain), do outro, o “ensolarado” (sunny brain). Poucos meses antes, Chris Mooney “descobrira” que os republicanos são geneticamente diferentes dos democratas, e também menos inteligentes e mais agressivos do que seus adversários políticos “porque têm uma amídala mais ativa”, a amídala cerebral, é claro. O que me levou a supor que o filho republicano de Alan Alda em Todos Dizem eu te Amo, que depois de um piripaque se transformava num democrata liberal, teve sua amídala amansada no hospital.

Quando a dicotomia neurometeorológica de Elaine Fox e o maniqueísmo neuroeugenista de Chris Mooney chegaram ao mercado, os best-sellers de Malcolm Gladwell (Blink – A Decisão num Piscar de Olhos) e Jonah Lehrer (Proust Era um Neurocientista e Imagine: Como Funciona a Criatividade) já haviam sido malhados pelos vigilantes da seriedade científica espalhados por publicações especializadas e pela internet; sendo que Lehrer acabou demitido da revista The New Yorker por inventar citações. Existem blogueiros que se dedicam a apontar e gozar erros e abusos cometidos pelos proxenetas da divulgação científica. São os “neurocéticos”, que leem tudo o que se publica em jornais, revistas e livros com mais de um grão de sal. Serviço não falta.

Um grupo de cientistas ingleses analisou cerca de 3 mil artigos sobre neurociência publicados na imprensa britânica nos primeiros dez anos da década passada e constatou ser bastante elevada a taxa de informações distorcidas ou edulcoradas pela mídia, por ignorância, negligência ou para servir a algum interesse. Divulgada pela revista Neuron, a pesquisa motivou a comunidade científica a um alerta contra os que ajudam a conferir “uma aparência de seriedade e verdade a pensamentos vagos e indisciplinados” e a difundir a falácia de que as explicações neurocientíficas vieram para eclipsar as interpretações históricas, sociológicas, políticas, econômicas, literárias, e torná-las obsoletas.

* É COLUNISTA DO ESTADO E AUTOR DE ‘FORAM TODOS PARA PARIS’ (CASA DA PALAVRA)

FONTE: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-ano-da-neurocascata,978978,0.htm

[NEUROBUSINESS] O ano da neurocascata
Classificado como: