O futuro da mente

Quais cientistas mais provavelmente serão responsáveis, um dia, pela transformação da natureza essencial do gênero humano? Os geneticistas? Talvez não. Na verdade, a neurotecnologia coloca ameaças maiores e mais imediatas do que a genética. No entanto, os desafios aí implícitos, éticos e legais, permanecem amplamente ignorados por governos e pessoas em geral. A modificação genética de um indivíduo certamente terá a ver com seu comportamento subsequente. Mas os genes exercem seus efeitos através do cérebro. Portanto, caso se queira predizer e controlar comportamentos, o cérebro é o lugar para se começar. No decorrer da próxima década, cientistas poderão prever, examinando imagens do cérebro de uma pessoa, se ela terá tendências para a saúde ou a doença mental ou se estará inclinada para a depressão ou a violência. Implantes neurais poderão, dentro de poucos anos, servir para aumentar a inteligência ou acelerar reflexos. A experimentação avança. Faltam luzes sobre seu sentido mais profundo.

A neurociência antecipa-se à genética na ameaça à privacidade, à autonomia e ao próprio conceito de natureza humana.
Entreabrindo a mente
Foto: Mauro Nakata

No mundo geneticamente projetado do filme Gattaca, de 1997, herói e heroína vão a um concerto em que o pianista apresenta uma peça que só pode ser tocada por alguém que tenha seis dedos em cada mão. Trata-se de uma sociedade na qual prevaleceu a vontade dos perfeccionistas da genética. Os frequentadores da sala de concerto foram alterados antes do nascimento, para que não sofressem de incômodos como calvície, obesidade e diabetes, além de serem altos, bonitos e inteligentes. Naquele recinto, por incrível que pareça, apenas Ethan Hawke teve uma existência livre do aperfeiçoamento genético artificial. Só ele precisou se arriscar na verdadeira loteria que é a concepção natural.

Compare-se a cena descrita com outra, em que os efeitos da neurotecnologia (tecnologia que torna possível a manipulação do cérebro) são evidentes. O velho está sendo salvo do Mal de Alzheimer por um implante que mergulha suas células cerebrais numa saudável mistura de substâncias químicas. A menina, afirma o médico, tem um córtex que, um dia, renderá um prêmio Nobel de física – caso ela siga o regime recomendado de “cognicêuticos”, naturalmente. Como condição para serem admitidos no emprego, os guardas postados na entrada foram submetidos a exames de cérebro, para provar que não eram propensos a surtos incontroláveis de raiva. Os músicos do palco tomam drogas que aceleram reflexos, melhoram a audição e diminuem a ansiedade. Nada muito diferente de Gattaca. Certo?

O olho da mente.
Embora frequentemente ignorados, os avanços na neurotecnologia levantam questões éticas e legais de natureza e gravidade semelhantes às trazidas pelo progresso da genética. As preocupações a respeito da tecnologia genética concentram-se em três categorias: qual nível de triagem deve ser permitido para a identificação de determinadas características genéticas; quem deve ter acesso a essas informações; o que acontecerá quando essas características puderem ser alteradas à vontade, possivelmente de maneiras que desafiam a própria definição de ser humano.

As preocupações em torno da neurotecnologia encaixam-se nas mesmas três categorias. Em breve, neurocientistas talvez sejam capazes de analisar o cérebro das pessoas para lhes avaliar a saúde mental; passar essa informação, até acidentalmente, a empregadores e companhias de seguro; e “consertar” traços de personalidade defeituosos, com medicamentos ou implantes feitos sob medida. Também conseguirão, segundo alguns filósofos, expor falácias do pensamento filosófico ligadas diretamente à natureza humana, ao mostrar como o cérebro, de fato, toma decisões.

Até recentemente, neurobiólogos enfrentavam limitações no campo de pesquisa porque a maioria das experiências envolvendo o cérebro humano era considerada não-ética. A convenção diz que os médicos devem esperar que algum paciente chegue ao hospital portando um tumor ou outro tipo de lesão numa parte do cérebro cuja função ainda é desconhecida. O ideal é que esse paciente demonstre um comportamento estranho – por exemplo, seja capaz de multiplicar, mas não de somar; ou maltratar gatos, e não cães – que possa ser relacionado à região lesionada. Assim, a duras penas, constrói-se um mapa das áreas do cérebro e suas respectivas funções.

Chegam as máquinas.
Ao longo da última década, entretanto, multiplicaram-se as máquinas projetadas para medir a atividade cerebral. Existem, hoje, meia dúzia dessas tecnologias, desde as velhas favoritas, como a eletroencefalografia, a métodos novos, que incluem a magnetoencefalografia, que mede os campos magnéticos do cérebro, e a tomografia computadorizada por emissão de fóton único, que rastreia substâncias químicas marcadas radioativamente e injetadas no órgão. Uma das técnicas novas mais importantes é o mapeamento por ressonância magnética funcional (fMRI), que emprega poderosos campos magnéticos para monitorar o fluxo do sangue no cérebro e, assim, determinar quais áreas são mais ativas.

Com auxílio do fMRI, pesquisadores podem observar quais partes do cérebro entram em ação quando uma pessoa desempenha uma tarefa específica ou raciocina de determinado modo. Essa capacidade permitiria, por exemplo, identificar crianças cujo cérebro não está amadurecendo de forma normal – o que tornaria possível a intervenção precoce.

Questão antiga: Descartes pensou ter achado o ponto, no cérebro, em que corpo e alma se encontram.

Estudo que será publicado em breve pela revista Neuroimage mostra como isso pode funcionar. Vinod Menon e seus colegas na Universidade de Stanford têm usado o fMRI para investigar como o cérebro se comporta quando o paciente é submetido a um teste de cores e palavras de Stroop, que mede efeitos de interferência. O Stroop é um teste psicológico amplamente estabelecido, que consiste em apresentar ao paciente nomes de cores impressos numa tinta que não coincide com a cor descrita. O sujeito deve dizer qual é a cor da tinta, e não ler a palavra impressa.

À medida que a pessoa amadurece, o cérebro passa a lidar melhor com o desafio proposto pelo teste. Menon descobriu que crianças, adolescentes e adultos exibem níveis progressivamente diferentes de atividade cerebral que parecem refletir esse aperfeiçoamento. O médico também notou que uma criança cujo cérebro não está se formando normalmente exibirá um padrão de atividade cerebral incomum durante o teste. Isso revela problemas no desenvolvimento do órgão, que passariam despercebidos em uma avaliação psicológica de rotina, feita com base em questionários.

Ninguém poderia se opor a iniciativa tão nobre. Mas, o que dizer da idéia que veio a seguir? Greg Siegle e seus colegas da Universidade de Pittsburgh estudam a depressão. Em trabalho publicado na edição atual de Biological Psychiatry, o grupo relata que, quando indivíduos depressivos ouvem a leitura de uma lista de palavras depressivas, registram reações na região cerebral chamada amídala que são diferentes das verificadas em indivíduos “normais”. A amídala do paciente depressivo mantém-se em atividade por até 25 segundos depois de ouvidas as palavras da lista. No caso de indivíduos que nunca sofreram do mal, o tempo observado é de dez segundos. Siegle sugere que os sujeitos depressivos guardam e ruminam as palavras tristes, enquanto os não-depressivos simplesmente seguem em frente.

Sabe-se que a amídala está envolvida no processamento de emoções e, portanto, o resultado não chega a ser surpreendente. Suponha-se, contudo, que agências de emprego dispusessem de máquinas para fazer o fMRI (situação pouco provável, hoje, dado o alto custo do aparelho, mas não inimaginável). Um indivíduo que quisesse esconder de possíveis patrões evidências de que é depressivo teria mais dificuldade em fazer isso, caso se submetesse ao fMRI do que se apenas preenchesse uma ficha.

E isso pode ser apenas o começo. Assim como marcadores genéticos podem ser associados a estados físicos, mapeamentos cerebrais certamente serão relacionados a uma grande variedade de estados mentais. O exame de fMRI, por exemplo, pode tornar-se um método infalível de detecção de mentiras – e poderia identificar até “mentirosos perspicazes”, que fingem ter problemas de memória quando se sentem pressionados no interrogatório. Outros traços de personalidade, como tendência a agressividade ou aversão a riscos, também poderiam se revelar perante o escrutínio do fMRI.

A privacidade médica é outra área que pode ser comprometida pelo mapeamento cerebral. Uma das ameaças mais imediatas é um efeito colateral do exame, muitas vezes desconsiderado: o objeto do mapeamento é, de fato, a cabeça, e não só o cérebro. Em outras palavras, um mapeamento magnético do cérebro contém informações suficientes acerca da parte frontal do crânio para se recriar uma imagem reconhecível do objeto mapeado. O resultado é que, ao contrário de um perfil genético, que não determina, por si só, a identidade de quem se submeteu ao exame, nenhuma imagem obtida por ressonância magnética é anônima.

Imagens da perfeição?
Neurocientistas já compilam bancos de dados de mapeamentos cerebrais com propósitos de pesquisa. Em 2000, John Van Horn e Michael Gazzaniga, cientistas especializados em ciência cognitiva do Darthmouth College, em Hanover, New Hampshire, lançaram um banco de dados chamado fMRI Data Center, com o objetivo de disseminar estudos sobre o tema entre outros especialistas. Esperam que a iniciativa estimule novas descobertas no campo da neurociência, do mesmo modo que o GenBank, banco de dados público de sequências genéticas, fez progredir a genética. O fMRI Data Center gera dados a partir de estudos disponíveis aos pesquisadores e deve, em breve, organizar o conteúdo, de modo que os itens mais interessantes possam ser extraídos de maneira sistemática. Até aqui, diz Gazzaniga, 400 pesquisadores do mundo todo solicitaram dados do centro. A informação é remetida em CD e o solicitante a utiliza como bem entender.

Uma solução para o problema de falta de anonimato, no caso de imagens feitas por ressonância magnética, seria embaralhar a porção do mapeamento que contém informações faciais. É o que fazem os administradores do banco de dados de Dartmouth. Esse procedimento, porém, inutiliza os dados para alguns tipos de análise. Por isso, não se sabe se outros operadores de bancos de dados de neuro-imagens (vários estão em fase de planejamento) tomarão essa opção como modelo.

Do mesmo modo que acontece com a genética, o que mais preocupa muitos dos que temem o avanço da neurotecnologia é que algum dia ela seja capaz de “aperfeiçoar” seres humanos. Alguns imaginam que isso possa diluir as diferenças entre indivíduos, transformando a sociedade numa massa homogênea. Outros temem o perigo oposto: uma divisão tipo Gattaca entre os privilegiados e os que não podem ser melhorados.

Visões aterradoras do futuro sempre conseguem muita publicidade, mas é realmente difícil traçar o limite entre uma terapia necessária e um aperfeiçoamento opcional. Alguns afirmam que a sociedade aceitou a idéia da chamada “psicofarmacologia cosmética” logo que as pessoas começaram a usar drogas recreativas. Quem nunca se sentiu mais perspicaz e mais atraente do que o normal sob a influência do álcool? E quem nunca achou as outras pessoas mais atraentes e encantadoras nessas mesmas circunstâncias?

Outro argumento é que as drogas para o cérebro são nada mais que um passo adiante no caminho já tomado pela ortodontia, cirurgia estética facial, Viagra e outros “extras” da medicina. Pode ser. Mas também pode ser um passo com uma bota de sete léguas, pois os laboratórios farmacêuticos mal estão começando a explorar todo o espectro de problemas psicológicos que nos afligem. Drogas para combater a timidez, o esquecimento, a sonolência e o stress já estão, ou logo estarão, em fase de testes clínicos. Isso, sem falar em versões aperfeiçoadas de drogas que já conquistaram a sociedade – aquelas que Arthur Caplan, bioético da Universidade da Pensilvânia, chama de “super-Prozacs”.

Um exemplo da tendência para tornar as características normais tratáveis é a pesquisa sobre o “dano cognitivo leve”, a pequena deterioração da memória que acompanha o envelhecimento. Ou melhor – que hoje acompanha o envelhecimento. Muitas empresas estão em busca de drogas que evitem essa perda de memória. Por exemplo, os cientistas da Cortex Pharmaceuticals, em Irvine, Califórnia, estão explorando possibilidades com certas moléculas que se ligam às proteínas das células nervosas chamadas receptores AMPA. Isso serve para amplificar a transmissão de sinais de uma célula nervosa para outra – em especial, para amplificar o efeito de uma segunda proteína, o receptor NMDA, associado à aprendizagem. A Targacept, empresa de Winston-Salem, Carolina do Norte, pesquisa outro grupo de proteínas das células nervosas, os receptores nicotinérgicos. Já foi provado que a ativação desses receptores aumenta a capacidade cerebral de atenção e pode evitar o declínio cognitivo.

Outra tecnologia, conhecida como TMS (sigla, em inglês, para estimulação magnética transcraniana), também traz grandes promessas. Já que as células nervosas usam sinais elétricos e já que os campos magnéticos podem induzir e interromper esses sinais, um estímulo forte e bem direcionado pode afetar a atividade cerebral. Segurando uma bobina magnética acima do crânio da pessoa, o pesquisador pode afetar a atividade da região do córtex logo abaixo da bobina, sem causar nenhuma dor ao paciente. Os pulsos magnéticos repetidos interrompem a transmissão neural nessa área – criando, na verdade, uma pequena lesão sob encomenda. Até hoje, ninguém tem certeza de como isso funciona, mas há dados que sugerem que certos tipos de TMS melhoram o desempenho da memória e do raciocínio.

A morte do livre arbítrio?
Os processos de seleção profissional, a privacidade e o aperfeiçoamento cerebral são questões importantes, sem dúvida. Para muitos críticos, porém, são apenas temas laterais. As questões realmente incômodas colocadas pela ciência do cérebro são as que atingem o próprio cerne do que significa ser “humano”. Ou, mais especificamente, aquilo que os filósofos e teólogos já afirmaram que é a essência do ser humano.

No Ocidente, pelo menos, a qualidade decisiva para essa definição é o conceito de “livre arbítrio”. Embora alguns filósofos considerem o livre arbítrio uma ilusão que serve para ajudar as pessoas a interagir, outros pensam que é algo genuíno. Ou seja, um indivíduo que tem diante de si um determinado conjunto de circunstâncias pode realmente escolher um curso de ação entre um leque de opções possíveis. Essa idéia não combina com o conceito de que as decisões mentais são pura consequência de interações eletroquímicas no cérebro, já que se pode esperar que o output dessas interações sejam consequência inevitável do input. Também não combina com outro argumento, separado, mas paralelo, segundo o qual as escolhas morais corretas são resultado de uma espécie de programa biológico de tomada de decisões, formado pela evolução. Não se trataria, portanto, de conclusões alcançadas pelo raciocínio abstrato.

Sejam quais forem os mistérios filosóficos, já há casos em que a neurotecnologia pode ter um efeito prático no desenvolvimento moral humano. Erik Parens, do Hastings Centre, centro de estudos de Garrison, Nova York, teme que a nova ciência possa, por exemplo, “reduzir o número de modos aceitáveis de ser uma pessoa”.

Para ilustrar esse ponto, Parens afirma que o ato de ministrar a uma criança normal, saudável, o Ritalin, droga usada para tratar a chamada hiperatividade, é na verdade “uma escolha moral substantiva”, pois diz à criança que ela precisa mudar para ser aceitável. Se o esquecimento, a xenofobia e toda uma série de outras excentricidades que constituem o caráter de uma pessoa se tornarem traços opcionais, e não inevitáveis, as pessoas se tornarão mais inclinadas a discriminar contra os portadores dessas características.

As descobertas da neurociência também podem ter profundas implicações legais. Por exemplo, a maioria dos tribunais aceita a alegação de insanidade como defesa, em certos casos criminais. Se for possível demonstrar que a propensão para a agressividade ou a violência tem uma base biológica no cérebro, o advogado pode argumentar que seu cliente não pôde controlar seus impulsos violentos. Será possível pedir ao tribunal que considere as imagens cerebrais como atenuantes, para mostrar que um suspeito não é realmente culpado do crime que cometeu.

Donald Kennedy, neurocientista e também editor da revista Science, afirma que é provável que ocorra “alguma ampliação do campo das circunstâncias atenuantes”, como resultado dos avanços da neurociência. Mas cada jurisdição trata as alegações de insanidade à sua própria maneira, de modo que nem todas podem aceitar as imagens cerebrais como atenuantes. No Texas, por exemplo, o promotor precisa apenas demonstrar que o suspeito sabia “a diferença entre certo e errado” no momento do crime. Até indivíduos que são, sem nenhuma dúvida, insanos, podem ser considerados culpados se satisfizerem essa condição.

Examinando a alma.
Ve-se, assim, que os que refletem sobre as questões relativas ao livre arbítrio, a alma e a natureza humana estão vendo os termos desse debate se alterarem pela moderna ciência do cérebro. Mas a história desse debate é um bom consolo para os que temem que a neurotecnologia esteja prestes a catapultar a sociedade para um “futuro pós-humano”, nas palavras de Francis Fukuyama no título de um livro recente. A alma humana – ou seu equivalente fisiológico – já demonstrou ser algo extremamente difícil de se captar.

O filósofo René Descartes acreditava ter encontrado o ponto exato no cérebro onde corpo e alma se encontram. Sem nenhum romantismo, a estrutura que ele escolheu foi a humilde glândula pineal. Mas como nota secamente o autor de um livro didático muito popular sobre o assunto, “hoje isso parece improvável, pois os tumores pineais não causam as mudanças que se esperaria encontrar associadas à distorção da alma”. Ainda será preciso fazer muita pesquisa até que a natureza humana revele seus segredos.

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