O outro no corpo, o corpo no outro

Na operação, ela recebeu parte do tecido facial – triângulo formado pelo nariz, queixo e lábios – de uma paciente com morte cerebral. A cirurgia gerou um intenso debate ético a respeito da apropriação corporal e de suas conseqüências na construção e na manutenção da identidade psicológica dos homens, ou seja, da construção de um eu.

Aproveitando a mobilização da comunidade científica o suplemento Mais! da Folha de São Paulo publicou, em 11 de dezembro de 2005, com a colaboração da psicanalista Maria Rita Kehl; do antropólogo da Universidade de Estrasburgo, David Le Bretton; e do professor de filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro, uma matéria intitulada “Com o outro no corpo” na qual discutia-se a possível troca de identidade entre doadores e receptores de órgãos transplantados.

Nesta matéria, o antropólogo Le Breton afirmava que, no caso do transplante ser facial, o receptor passa a se identificar com o processo intencional que caracteriza a identidade do doador, isto é, de um outro eu. Em suas próprias palavras: “…transplantar um rosto consiste acima de tudo em transplantar uma identidade, e a operação (no caso, o transplante) tem conotações sísmicas para a base da personalidade. Receber o rosto do outro é como se expor a não mais ser reconhecido, a não mais poder se olhar no espelho sem perceber outra pessoa colada ao próprio rosto”. Afirmações como estas requerem maiores cuidados e considerações uma vez que o que caracteriza um rosto, ou mesmo um corpo como uma individualidade ou um eu, não é a sua configuração ou substancialidade física, mas, sobretudo, a expressão intencional que dele emana.

A palavra latina “alteru”, outro, que aparece no título da matéria do suplemento Mais! e, aparentemente, define o problema ético por ela veiculado, se refere a uma dentre duas entidades animadas ou inanimadas. No caso de entidades animadas, mais especificamente de organismos intencionais como o ser humano, diz-se que o outro é aquele cuja experiência intencional distingue-se daquela de um determinado eu. Ora, um pedaço de tecido inanimado, desprovido de intencionalidade, que constitui a parte inferior do rosto de um doador, não pode ser considerado um outro. Neste sentido não se pode dizer que indivíduos transplantados passem a vivenciar um outro eu, ou seja, um eu secundário em seus corpos, como acontece com certos psicóticos ou com os indivíduos que são supostamente “possuídos” momentaneamente por determinadas entidades espirituais. Estes últimos, ao contrário dos transplantados, que apenas acrescentam ao próprio corpo uma prótese orgânica com a finalidade de melhor expressar a sua própria e singular intencionalidade, isto é, o seu eu, sentem-se invadidos por uma intencionalidade que lhes é estranha, a de um outro eu. Neste sentido é exemplar o dilema existencial dos gêmeos univitelinos. Nestes, intencionalidades distintas e individualizadas, expressas através de configurações corporais duplicadas e idênticas, em geral não apresentam distúrbios de auto-identificação significativos.

A influência das modalidades sensoriais (visual, auditiva, tátil e olfativa) e da motricidade que responde pela expressão intencional facial, e a influência destas na instalação e na manutenção da individualidade, só serão realmente conhecidas após um criterioso trabalho científico. Espera-se que o tempo, o surgimento de novos casos de transplantados faciais e a pesquisa comparativa destes com outros indivíduos portadores de distúrbios de identidade, não transplantados, forneçam os subsídios necessários para se afirmar, com mais segurança, quais as possíveis vantagens e desvantagens dos transplantes faciais.

Fonte: Revista Neurociências Volume III Nº 1: Opiniões

O outro no corpo, o corpo no outro
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