Quando pensar demais atrapalha

Decisões simples como essas de vestuário são resolvidas facilmente com um pouco de raciocínio e memória de trabalho, essa capacidade do cérebro de manter rodando para acesso imediato, como bolas de malabarismo no ar, umas três ou quatro informações: está calor? Há algum encontro importante previsto para o dia? Vou andar muito, ou será um dia à frente de um computador ou microscópio? Atenta a essas informações, uma consulta rápida aos ítens disponíveis no armário leva a uma decisão racional e, geralmente, acertada. Que pode ser descartada sumariamente à primeira olhada no espelho, claro, se aquela parte-do-cérebro-aprovadora-de-vestuário (tenho certeza que ela existe!) decidir que algo não está bem.

Após nova sessão de malabarismo para deliberar se saio de casa de táxi, ônibus ou no carro velho (um é caro, o outro é barato mas desconfortável, e o terceiro é inconstante, mas relativamente barato e tem ar-condicionado), chega a hora de colocar as habilidades malabarísticas do meu cérebro realmente à prova: vou comprar outro carro – mas qual? Novo ou usado? De qual marca? Qual cor? Por qual preço? Movido a álcool, gasolina, ou os dois? Motor 1.0, 1.2, 1.4, 1.6, 1.8 ou 2.0? Com ar-condicionado e direção hidráulica? Freios ABS? Farol de milha? Controle da janela na porta, ou no console? Luzes do painel azuis ou laranja? São dezenas de informações, meus olhos se embaçam e a memória de trabalho pede socorro: malabarista-mor das habilidades mentais, ela somente consegue lidar com até umas sete ou oito informações de cada vez. As demais escapam à atenção. Se eu tentar decidir racionalmente nessa hora, julgando conscientemente todas as combinações de todos os ítens de todos os carros disponíveis e minha conta bancária, a chance de a melhor combinação escapar à minha atenção e eu me tornar mais uma consumidora insatisfeita é muito grande.

Isso é o que atestou, em artigo publicado em fevereiro na prestigiada revista Science, um grupo de psicólogos experimentais da Universidade de Amsterdã, na Holanda. Para decisões que exigem a análise de poucos ítens – quatro, no seu experimento –, as chances de se escolher o melhor e ficar satisfeito com a escolha, após deliberação atenta, são bastante boas. Mas aumente para 12 o número de ítens a considerar, e não só será mero acaso você fazer a melhor escolha após muita deliberação atenta, como também suas chances de ficar contente com a escolha diminuem drasticamente.

Mas tudo muda se, antes de chegar a uma decisão, você for passear, pensar em outra coisa; talvez dormir, como recomendam os americanos (sleep on it!); ou resolver problemas de matemática, como os pesquisadores holandeses fizeram, para ter certeza de desviar da escolha a ser feita a atenção dos participantes do estudo. Se logo após a distração você for obrigado a fazer uma escolha complexa, dessas que envolvem a deliberação sobre mais ítens do que sua memória de trabalho consegue manter no ar, suas chances de fazer uma boa escolha e ficar contente com ela são muito maiores do que se você tivesse ficado repassando conscientemente todas as alternativas.

Soa quase irresponsável, é verdade, mas deixar o cérebro se virar sozinho, sem atenção, é bem diferente de tomar decisões impulsivas. A hipótese de deliberação-sem-atenção de Ap Dijksterhuis e Rick van Baaren explica por que este tipo de decisão funciona melhor quando a escolha é complexa: é tudo culpa da nossa capacidade limitada de atenção. Enquanto ela dá conta do número de informações a considerar, ótimo: decisões simples, como a escolha do café-da-manhã e da roupa do dia, ou de um xampu, CD ou sapato, como no estudo holandês, são ótimas quando tomadas conscientemente, com atenção aos ítens relevantes. Mas se tem mais areia do que o caminhãozinho cerebral da atenção dá conta, melhor deixar o cérebro resolver o assunto escondido da supervisão atencional.

A vantagem da deliberação-sem-atenção em situações complexas toca num ponto crucial: a diferença entre o consciente e o insconsciente. Há quem defenda que os dois são processos diferentes, talvez até independentes, e mesmo realizados por regiões diferentes do cérebro. Eu prefiro uma versão mais simples: processos conscientes são aquilo que os inconscientes se tornam ao receberem atenção. Alguns são rápidos demais para chegarem à atenção, como o processo de multiplicação por dez ou a leitura silábica: o resultado simplesmente “aparece” para o cérebro. Outros costumam permanecer inconscientes apenas porque são simples e familiares o suficiente para não exigir supervisão atenta enquanto são realizados: assim é possível passar marchas e pisar na embreagem na ordem certa enquanto se presta atenção na conversa com o carona. Outros, ainda, requerem trabalho investigativo para que se os alcance, por exemplo pela psicanálise, ou são francamente inacessáveis, fruto das primeiras interações do cérebro com o mundo, na infância, ou de processos cerebrais tão fundamentalmente fisiológicos, como as emoções mais simples, que ainda é difícil entendê-los.

O que importa é que, com ou sem atenção, se as informações foram codificadas – ou seja, se passaram atentamente pelos sentidos e entraram para o cérebro –, elas estão acessíveis para deliberação, seja esta agora consciente, foco de escrutínio atencioso baseado em alguns poucos critérios, ou não. A grande vantagem da deliberação-sem-atenção parece estar em contar com todas as habilidades lógicas do cérebro, não limitadas pela supervisão atencional. O resultado da deliberação-sem-atenção, assim, é uma respostanão apenas de um raciocínio sobre quatro ou cinco informações, mas de todo um cérebro com acesso a todas as informações disponíveis, novas e antigas, suas preferências inatas e aprendidas, e até mesmo aquela lista enorme de ítens sobre carros e contas bancárias.

Confortada pelos holandeses, decido então conscientemente algumas coisas simples, como limite de preço, número de portas, direção hidráulica e ar-condicionado, saio às lojas à caça de informações para alimentar meus processos deliberativos, e vou ao cinema com os amigos dedicar minha atenção limitada a outras coisas menos complexas enquanto meu cérebro delibera, livre de supervisão. Quando ele chegar a um veredito, eu saberei – porque a resposta à pergunta “E aí, qual carro você vai comprar?” sairá naturalmente, como que por mágica.

E então, quando chegar a hora de avaliar minha satisfação com a decisão tomada, meu cérebro provavelmente estará contente por ter sabido combinar meus desejos interiores, ou melhor, anteriores, com toda a miríade de carros disponíveis. E, em caso de necessidade, poderá até fazer o processo inverso: encontrar argumentos racionais para justificar, e ratificar, a decisão já tomada, e se convencer de que ela foi, de fato, acertada. Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho. Meu cérebro cuida disso.

Fonte: Editoria da Revista Neurociências Volume III Nº 1

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