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Sono, Aprendizagem & Memória

Sono, Aprendizagem & Memória

Ao despertar, avaliava a qualidade da noite anterior e anotava detalhes em um diário. Leonardo da Vinci (1452-1519) acordava antes do resto da humanidade, mas reservava quinze minutos a cada duas horas para tirar uma soneca. O pintor da Mona Lisa e idealizador do princípio do vôo do helicóptero conseguia assim encarar seus desafios com a mente descansada. Albert Einstein (1879-1955) determinou ser a luz a única constante do universo, mas gostava mesmo era de penumbra. Ele dormia dez horas por noite e, a cada idéia nova, se premiava com uma hora extra na cama. Intuitivamente, os três gênios perseguiam uma rotina noturna pessoal capaz de prover combustível a suas mentes poderosas. Só agora a medicina está explicando os efeitos notados por Edison, Da Vinci e Einstein. A qualidade do sono afeta diretamente as funções intelectuais e artísticas de modo decisivo, regulando as forças mentais durante o período ativo do dia e armazenando o conhecimento e as experiências valiosas da pessoa enquanto ela dorme.

O efeito do sono, ou da falta dele, sobre a disposição física e mental das pessoas é conhecido desde tempos imemoriais. A medicina está conseguindo agora, em primeiro lugar, explicar a origem físico-química desse efeito. Mas, principalmente, as pesquisas atuais ajudam a estabelecer um cronograma das horas do dia nas quais a pessoa estará mais apta a aprender. Esse cronograma, claro, depende de como a noite anterior foi aproveitada. Em segundo lugar, está ficando cada vez mais nítido o processo pelo qual o cérebro humano seleciona e armazena os milhares de informações adquiridas durante o dia. Isso se dá durante o sono. Cada etapa do sono é usada pelo cérebro para estocar determinado tipo de informação. As musicais são gravadas logo nos primeiros minutos. Aquelas ligadas ao pensamento lógico e matemático são registradas durante as etapas finais dos ciclos do sono, marcadas pela movimentação veloz dos olhos sob as pálpebras e permeadas de sonhos. Essa é a chamada fase REM, a sigla em inglês para rapid eye movement. O alemão Jan Born, da Universidade de Lübeck, coordenador da pesquisa, resume: “Deciframos finalmente o fantástico processo de armazenamento do conhecimento na mente humana”.

Ao longo de um ano, os alemães de Lübeck observaram todas as noites a atividade cerebral de sessenta pessoas enquanto elas dormiam. Com imagens obtidas por meio de aparelhos de ressonância magnética, os cientistas puderam enxergar claramente o processo de consolidação das informações aprendidas durante o dia. Eles mapearam com precisão todo o trajeto de uma informação, desde o momento de sua absorção em estado de alerta até a gravação durante o sono. A gravação é um processo químico sem o qual os fatos do dia seriam simplesmente apagados. Os pesquisadores descobriram uma faceta extraordinária desse processo justamente na fase de sono REM. Nela, uma substância-chave está com sua atividade reduzida no cérebro. Esse composto é a acetilcolina, justamente a substância responsável pela retenção das informações no hipocampo, uma região do cérebro onde os dados são armazenados temporariamente e de onde podem evaporar se não forem coletados a tempo para se tornar memória de longo prazo em outra área – o neocórtex. A nova pesquisa mostra com nitidez a trajetória da informação do hipocampo ao neocórtex. Esse valioso processo só se dá enquanto a acetilcolina está “adormecida”. Sua inércia, ocorrida durante o sono, abre caminho para os neurônios formarem uma rede por meio da qual as informações farão a viagem do arquivo temporário rumo ao depósito duradouro. A ilustração na página 98 mostra graficamente esse processo.

O estudo alemão reforça a teoria do sono como fator fundamental da boa memória. Uma nova leva de pesquisas fez avançar ainda mais o entendimento desse processo ao medir os efeitos do repouso sobre o desempenho das pessoas, submetendo-as em diversas fases do dia a testes intelectuais. Elas são unânimes em mostrar os danos à memória provocados por uma noite mal dormida e como tudo melhora depois de um bom período de descanso. Um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, traduziu essa situação em números. O estudo de Harvard, apresentado no último congresso da Academia Americana de Neurologia, é o mais abrangente sobre o assunto já feito com voluntários. Eles foram monitorados ao longo de seis meses. Ao cabo de oito horas seguidas de sono, os voluntários da pesquisa de Harvard lembravam, em média, 44% mais fatos aprendidos no dia anterior em comparação com aqueles privados de sono. “A relação entre sono e memória é de uma clareza geométrica”, diz o pesquisador Jeffrey Ellenbogen, um dos autores do estudo. Uma segunda etapa da pesquisa americana investigou ainda em que medida o sono pode ajudar a atenuar certos problemas de aprendizado (veja quadro).

Ao investigarem a memória durante o sono, os especialistas obtiveram ainda respostas sobre o processo de seleção de informações quando o cérebro está em estado de repouso noturno. Trava-se ali uma competição frenética entre as informações assimiladas. Apenas uma parte delas, afinal, fará a jornada rumo ao arquivo duradouro no neocórtex, cuja capacidade é limitada. Qual o critério de decisão para separar as informações valorosas o suficiente para ser guardadas daquelas descartáveis? A neurociência hoje pode responder com certeza a essa questão. A resposta é surpreendente. As informações absorvidas quando a pessoa está sob algum tipo de emoção forte são justamente aquelas aptas a conquistar, durante a noite, um lugar definitivo no cérebro. Por essa razão, as pessoas tendem a se lembrar em profusão de detalhes dos mais lindos momentos da vida, mas também dos mais desagradáveis. A emoção é a chave de entrada das informações no neocórtex. Quando em excesso, a emoção pode ter efeito diametralmente oposto. Razão pela qual as pessoas não se recordam de instantes finais de acidentes ou mesmo reprimem inconscientemente as lembranças de fatos aterrorizantes, como, por exemplo, testemunhar o assassinato da mãe pelo pai. Conclui o neurofisiologista Flávio Alóe, do Hospital das Clínicas de São Paulo: “O processo de esquecimento durante o sono é tão vital quanto o do armazenamento das informações. Sem ele, o cérebro entraria em colapso”.

Esse conjunto de conclusões sobre o sono derruba definitivamente a velha – e equivocada – teoria segundo a qual sua exclusiva contribuição ao aprendizado seria a de proporcionar ao cérebro um momento de descanso, ao protegê-lo das influências externas. Com o ocaso da antiga teoria surge uma nova, a da “inatividade” noturna como vital para o armazenamento das informações acumuladas no decorrer do dia. O fisiologista Alfred Loomis, da Universidade Princeton, foi o primeiro a descrever, em 1937, o cérebro noturno como um dínamo em atividade. Amparado pelo eletroencefalograma, então um exame revolucionário, Loomis flagrou uma intensa atividade elétrica noturna no cérebro de seus pacientes. Sua observação inicial mostrou o sono se desenvolvendo em fases, cada uma com uma freqüência elétrica diferente. Isso permitiria, mais tarde, distinguir as cinco etapas do sono. Apenas recentemente os cientistas começaram a fazer uso das conclusões de sete décadas atrás para entender melhor os caminhos do aprendizado e sua fixação na memória. As duas primeiras modalidades de memória a ter seus processos desvendados foram a motora (o drible de um jogador, o salto de um atleta) e a espacial (o projeto de um arquiteto). Os alemães ajudaram a colocar mais um tijolo no edifício ao rastrear os mecanismos de fixação da memória intelectual durante o sono.

Outras pesquisas fizeram sintonia fina das descobertas anteriores. Elas centraram suas atenções nos períodos mais indicados ao trabalho mental (veja quadro). São dois, principalmente. Um deles, o da parte da manhã, ocorre mais ou menos duas horas depois do despertar. Nesse momento o corpo libera uma quantidade maior de hormônios estimuladores dos neurônios. O cérebro chega, então, ao auge de sua atividade – e permanece assim por mais quatro horas. Uma das descobertas mais recentes, feita por um grupo de pesquisadores da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, flagrou situação igualmente positiva cerca de doze horas depois do despertar, quando ocorre no cérebro a produção acelerada de um tipo de proteína cuja concentração estimula as conexões entre os neurônios. Foi possível observar justamente nesse momento – e nas três horas seguintes a ele – uma espécie de replay das informações aprendidas ao longo do dia, fenômeno batizado de “reverberação” pelos cientistas. Afirma um dos autores do trabalho, o neurocientista Iván Izquierdo, argentino radicado no Brasil: “Esse momento de replay é a hora mais favorável para fazer uma revisão de matéria aprendida em outros momentos do dia”.

Certos hábitos noturnos também têm influência – positiva ou negativa – sobre o aprendizado, e os cientistas já sabem como explicar isso. Para 90% das pessoas, o repouso ideal tem a duração de oito horas. É o tempo necessário para concluir cinco ciclos de sono – um padrão favorável tanto ao descanso como à memória. Há quem alcance o mesmo efeito antes disso, mas é uma minoria. Ainda segundo as pesquisas, o melhor sono para o aprendizado se encerra por volta das 6 da manhã. Por duas razões. Primeiro, porque o corpo está biologicamente “programado” para o repouso até essa hora. A temperatura do corpo está 1 grau Celsius mais baixa. O segundo motivo: quem acorda mais cedo consegue aproveitar todos os picos de aprendizado. Quem sai da cama por volta das 8 da manhã tem o período favorável à atividade intelectual reduzido em 20%. Há um certo consenso sobre a impossibilidade de compensar mais tarde o tempo de atividade máxima perdido pela manhã. Por volta das 9 da noite, o corpo começa a liberar hormônios indutores do sono e os neurônios de novo se preparam para as funções noturnas. Diz John Fontenele Araujo, do laboratório de cronobiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte: “Estudo depois dessa hora é sempre menos produtivo”.

Um novo e revolucionário capítulo sobre sono e aprendizado foi aberto pelas descobertas dos processos de aquisição e armazenamento de conhecimento. Para onde se caminha agora? A nova fronteira a ser quebrada é explicar a inter-relação entre os dados armazenados.

Um recente estudo da Universidade Harvard vai exatamente nessa direção. Ele mostra os neurônios durante o sono fazendo conexões entre informações aparentemente díspares ou adquiridas em situações diferentes. “Isso explica o fato de muita gente acordar com a sensação de ter tido uma brilhante idéia enquanto dormia”, disse a VEJA o neurocientista Robert Stickgold, coordenador da pesquisa. Muitas foram as soluções arquitetadas durante a noite por sábios da história. O químico russo Dmitri Mendeleiev (1834-1907) teve o clique decisivo para criar a tabela periódica dos elementos durante o sono. O canadense Frederick Banting (1891-1941), um dos agraciados com o Prêmio Nobel pela descoberta da insulina na década de 20, contou ter sonhado com a solução. O caso mais intrigante é o do alemão Friedrich Kekulé (1829-1896). Debruçado sobre os mistérios da química orgânica, ele saiu-se com a estrutura da molécula de benzeno depois de sonhar com a forma arredondada de uma cobra devorando a si mesma. À luz das novas descobertas talvez não seja assim tão inútil passar um terço da vida dormindo.

 

O SONO DOS GÊNIOS

A ciência do sono nem sequer existia quando alguns dos maiores gênios da história já intuíam que, de algum modo, o repouso tinha papel fundamental em seus inesgotáveis processos criativos. Cada um adotou uma rotina de descanso própria, por vezes excêntrica, em busca do sono perfeito. Três exemplos:

Time Life Pictures/Getty Images 

LEONARDO DA VINCI
(1452-1519)

O pintor da Mona Lisa e idealizador do princípio do vôo do helicóptero perseguia o descanso da mente com uma rotina incomum: trocava o sono noturno por cochilos de quinze minutos a cada duas horas

AFP

THOMAS A. EDISON 
(1847-1931)

O inventor da lâmpada mantinha um diário onde avaliava a qualidade do sono na noite anterior. Não queria perder tempo. Não passava mais de três horas na cama

 

AFP

ALBERT EINSTEIN 
(1879-1955)

Ele hibernava dez horas seguidas todas as noites, exceto quando estava às voltas com uma nova idéia. Nessas ocasiões, premiava-se com uma hora extra na cama

QUANDO O REMÉDIO É DORMIR

As pesquisas sobre os efeitos das mudanças de hábito noturno já têm aplicação terapêutica em diversos casos

Problema: falta de concentração.
Quando é mais freqüente: na infância.
Como o sono pode ajudar: a mais abrangente pesquisa sobre o assunto, conduzida pelo Hospital Sacré Coeur, do Canadá, concluiu que o hábito de dormir dez horas seguidas reduz em 40% o risco de uma criança apresentar problemas de concentração. Para aquelas com dificuldade em dormir tanto, o estudo indica uma hora de atividades físicas diárias – cientificamente reconhecido como ótimo estimulante do sono infantil.  

Problema: dificuldade em resolver questões que envolvem raciocínio lógico.
Quando é mais freqüente: na adolescência.
Como o sono pode ajudar: promove um necessário momento de descanso aos neurônios. Um estudo da Universidade Harvard mostra que, quando alguém passa dezoito horas seguidas sem dormir, perde cerca de 30% da capacidade de resolver problemas que exigem raciocínios complexos. Por essa razão, o melhor é fazer uma pausa noturna e só retomar os estudos pela manhã. A pesquisa revela que o desempenho intelectual melhora depois disso.

Problema: perda da capacidade de memória.
Quando é mais freqüente: a partir dos 60 anos.
Como o sono pode ajudar: uma das causas para a redução da memória nessa faixa etária é que o sono se torna mais leve e a fase REM – justamente durante a qual se consolida a memória de longo prazo – passa a durar 50% menos tempo. A saída, dizem os cientistas, é esticar o número de horas na cama. Aos 60 anos, as pessoas dormem, em média, cinco horas. O ideal para a memória seriam pelo menos oito.

Riso cura

Riso cura

Ao ser diagnosticado como portador de uma doença que afeta a coluna cervical, Norman Cousins ouviu dos médicos que nada podia ser feito para ajudá-lo e que ele sofreria dores horríveis até morrer. Cousins resolveu então se confinar num quarto de hotel com todos os filmes de humor que pôde encontrar-os irmãos Marx,
os Três Patetas,etc.

Viu e reviu todos os filmes, vezes sem conta, dando as gargalhadas mais altas e mais intensas que podia. Depois de seis meses dessa terapia do riso, os médicos ficaram atônitos com o que constataram: a doença de Cousins fora completamente curada-simplesmente desaparecera! Este espantoso resultado levou à publicação do livro de Cousins, A força curadora da mente, e ao começo de uma intensa pesquisa sobre as funções das endorfinas. As endorfinas são substâncias químicas liberadas pelo cérebro quando rimos. Com uma composição química similar à da morfina e da heroína, ela produz um efeito tranqüilizante sobre o corpo,ao mesmo tempo em que reforça o sistema imunológico.Isso explica porque raramente as pessoas felizes adoecem, e as infelizes e queixosas sempre parecem estar doentes.

Desvendando os segredos da Linguagem Corporal
Allan & Barbara Pease


Postado por Nan no Bliss em 5/01/2008 09:09:00 AM

Resumos de artigos Neurocientíficos

Resumos de artigos Neurocientíficos

Relógio biológico – prazo de validade esgotado?
Biological clock – a concept losing validity?
Luiz Menna-Barreto

Resumo
Apresento o uso crescente da expressão “relógio biológico” no meio acadêmico e em meios de comunicação de massa. Em seguido faço um breve retrospecto histórico da evolução do conhecimento sobre o tema, incluindo uma caracterização de seu estado atual. Embora reconheça o impacto positivo causado pelo conceito, concluo propondo sua substituição pela expressão “sistema de temporização” a meu ver mais precisa e adequada ao conhecimento contemporâneo e, sobretudo, mais aberta ao entendimento do funcionamento dos organismos.

Abstract
In this article I comment on the increasing use of the expression “biological clock” in the academic world and in mass media. A brief historical account of the evolution of knowledge about the theme, concluding with a characterization of its “state of the art”. Although recognizing the positive impact provoked by the concept, I conclude suggesting its replacement by the expression “timing system”, in my opinion more precise and adequate to present knowledge and, most of all, more open to the understanding of how organisms function.
Fonte: Neurociências Volume II Nº 4: Revisões

Neurociência e arte: existe uma neuro-arte?
Norberto Garcia-Cairasco

There is no doubt that strong relationships between Science and Art always existed. Cave Men expressed their ideas through Art, as in “Cave Art”. One might consider if there was a transition from the Manual Arts or crafts to Art and from Naturalism and Realism to Science in the way we consider them nowadays. Regarding the relationship between Neuroscience and Art, paradoxically, the way we do research on the Brain-Mind relationships affects how we model the object of our study, the brain itself. Classical, Renaissance, Modern, and Contemporary views of both Neuroscience and Art permeate this discussion.
Fonte: Neurociências Volume II Nº 4: Perspectivas

Neurociência do esporte e do exercício
Neuroscience of sport and exercise
Emílio Takase

Resumo
Os avanços tecnológicos de imageamento cerebral, nos últimos dez anos, resultaram em uma maior compreensão da mente humana, contribuindo, ainda, para o progresso de uma subárea da Ciência do Esporte: a Psicologia do Esporte e Exercício (PEE). Mesmo assim, ainda existem poucos trabalhos sendo desenvolvidos e aplicados pelos psicólogos do esporte e exercício cujo enfoque seja a Neurociência Cognitiva e Comportamental (NCC). Assim, neste artigo pretendo apresentar alguns resultados de pesquisas recentes na área da NCC e sugerir mudanças de paradigmas na atuação do futuro profissional em PEE. Nesse contexto, seria relevante pensar em uma nova proposta – a Neurociência do Esporte e do Exercício – para estimular a criação de um novo caminho para as questões de performance e saúde mente-corpo.

Abstract
The technological advances of cerebral mapping, in last the ten years, have contributed towards the understanding of the human mind, and to the development of one particular subarea in Sport Sciences: the Psychology of Sport and Exercise (PSE). Nevertheless, little has been advanced by psychologists of Sport and Exercise with an emphasis in Cognitive and Behavioral Neuroscience (CBN). Thus, in this article I intend to present some relevant results in NCB and to suggest paradigm shifts for the future professional in PSE. In this regard, it would be interesting to create a new Neuroscience of Sport and Exercise to stimulate the development of novel ways to approach sports performance and mind-body health.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 5: Revisões

Suicídio, genes e serotonina
Suicide, genes and serotonin
Ana Luiza Garcia Cunha, Gustavo Silveira e Silva, Antônio Lúcio Teixeira, Rodrigo Nicolato, Marco Aurélio Romano-Silva, Humberto Corrêa

Resumo
A mortalidade por suicídio tem tido taxa crescente, fazendo dessa condição uma causa freqüente de morte e um sério problema de saúde pública em todo o mundo. Algo que chama a atenção é o fato de que segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 1.000.000 de pessoas morreram devido ao suicídio em 2001 (1,8% de todas as causas de morte) e projeções dessa organização estimam que em 2020 cerca de 1,5 milhão de pessoas poderão se suicidar (2,4% de todas as mortes). O comportamento suicida apresenta um determinismo multifatorial resultante de uma complexa interação entre três componentes principais: a doença psiquiátrica, fatores neuroquímicos e genéticos. Recentemente, diversos estudos têm demonstrado a existência de relações entre polimorfismos nos genes responsáveis pela função serotoninérgica e o comportamento suicida, confirmando a existência de uma base biológica e hereditária para tal complicação psiquiátrica.

Abstract
Mortality rates of suicide are rising, making this condition one of the most frequent causes of death and a serious world health problem. According to the World Health Organization (WHO), 1.000.000 people died of suicide in 2001 (1.8% of all death causes) and it is estimated that about 1.5 million people will commit suicide (2.4% of all death causes) in 2020. Suicidal behavior shows a multifactor determinism, resulting from a complex interaction between three main components: psychiatric disease, neurochemistry and genetic factors. Recently, several studies have demonstrated the existence of an association between polymorphisms in genes responsible for serotonergic transmission and suicidal behavior, corroborating the existence of a biological and hereditary base for this psychiatric complication.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 5: Revisões

Neuroética: a ousadia de Prometeu retomada
Roberto Lent

Neuroethics analyzes the system of values attributed to neuroscientific knowledge, whose advance is about to make real the mythical Promethean audacity of recreating human nature. Under the neuroethical prism, it becomes necessary to discuss two fundamental aspects: the use of neurotechnologies for the treatment of brain and mind diseases, and their utilization for neurocognitive enhancement of the normal person. This analysis reveals that therapeutic advances do not present ethical dilemmas of great impact, but those that offer enhancement raise important ethical issues for mankind, albeit solvable by open and rational discussion.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 5: Perspectivas

Neuropsina: uma enzima da família das serino-proteases
Neuropsin: an enzyme of the serine-proteases family
Reinaldo Barros Geraldo, Paula Campello Costa Lopes, Michele Aguiar, Carlos Rangel Rodrigues, Sadao Shiosaka, Helena C. Castro

Resumo
A neuropsina é uma serino-protease expressa em neurônios e células gliais, que está diretamente envolvida nos processos de memória e aprendizado. Este trabalho inclui uma revisão sobre esta enzima, abordando aspectos relacionados a sua estrutura, atividade biológica e papel no sistema nervoso central. Comparamos ainda a estrutura da neuropsina com a tripsina, uma enzima digestiva, e a Lm-TL, uma enzima do tipo trombina presente no veneno de Lachesis muta, que apresenta um efeito no sistema nervoso central da presa. Com este estudo pretendemos observar os requerimentos estruturais necessários para realização das atividades biológicas destas enzimas, que apesar de tão diferentes, possuem alto grau de homologia.

Abstract
Neuropsin is a serine-protease express in neurons and glial cells, which is directly involved in the process like learning and memory. This work includes a review about this enzyme, its structure, biologic activity and role in the central nervous system. We also compared neuropsin with trypsin, a digestive enzyme, and Lm-TL, a thrombin-like enzyme present in Lachesis muta venom, which affects the prey central nervous system. Our purpose is to observe the structural requirement of these enzymes for presenting their specific and different biological activities although their high degree of homology.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 6: Revisões

Aplicação do Bilingual Aphasia Test (Italian version) a um paciente trilíngüe
Assessment of a trilingual patient applying the Bilingual Aphasia Test (Italian version)
Leonor Scliar-Cabral

Resumo
Resultados obtidos a partir da aplicação do Bilingual Aphasia Test (BAT) em um paciente afásico trilíngüe na cidade de Florianópolis são apresentados e discutidos. PQ deu entrada no hospital em 17 de maio de 1992, quando estava com 72 anos, com um acidente vascular cerebral isquêmico que afetou a artéria cerebral média, com fibrilação atrial, como conseqüência de embolia cerebral e hemiplegia direita, como seqüela. Uma equipe de três pessoas aplicou a BAT em suas três versões: italiano, espanhol e português. É importante observar que o paciente não apresentou nenhuma dificuldade maior em repetir as pseudo-palavras: uma explicação para este desempenho e a outra evidência (processos automáticos) podem ser o salto entre os estágios de planejamento e de execução toda a vez em que a comunicação criativa é decisiva. Outra competência intacta foi a de desenhar: apesar da impossibilidade em utilizar a mão direita, o paciente desenhou um excelente auto-retrato, o que demonstra que ele não havia perdido a linguagem para desenhar (nem interna nem para produzir desenhos), um argumento muito forte em favor de que o desenho era processado no hemisfério não danificado.

Abstract
Results obtained from the application of BAT on one trilingual aphasic patient in the city of Florianópolis are presented and discussed. PQ was admitted to the hospital on 1992 May 17th, when he was 72 years old, with an ischaemic CVA, damaging the medium cerebral artery, with atrial fibrillation as a consequence of cerebral embolism. Sequela was paralysis on the right side. A team of three persons applied the Paradis test in its three versions: Italian, Spanish and Portuguese. It is worthwhile to observe that the patient did not show any great difficulty in repeating pseudo-words: an explanation for this performance and the other evidence (automatic processes) may be that there is a gap between the planning and the execution stages, whenever creative communication is decisive. Another important ability was drawing: despite the impossibility of using his right hand, the patient drew a very good self-portrait, which demonstrates that he did not loose the language for drawing (neither internally nor for producing drawings), a very strong argument in favor that drawings are processed by the undamaged hemisphere.
Fonte: Neurociências Volume III Nº 3: Estudos de caso

Aspectos neurofisiológicos da meditação
Neurophysiological aspects of meditation
Marcello Árias Dias Danucalov, Roberto Serafim Simões, Geraldo Vidile Júnior

Resumo
A produção científica recente vem abordando aspectos da neurofisiologia cerebral relacionada ao estado meditativo em duas vertentes. A primeira aborda os efeitos terapêuticos, tanto físicos como mentais, propiciados por essa prática. A segunda investiga os mecanismos fisiológicos envolvidos nesse estado alterado de consciência. O surgimento de novas técnicas de imageamento cerebral propiciou grandes avanços nesses estudos. Os trabalhos mais recentes têm sido direcionados aos aspectos neurofisiológicos relacionados à atividade meditativa, com ênfase na atividade eletroencefalográfica, no mapeamento das regiões neurologicamente ativas ou inativas durante o processo meditativo, e nos neurotransmissores envolvidos.

Abstract
This study reviews the recent scientific research on brain neurophysiology related to meditation. Historically, research on meditation has concentrated either on the investigation on both physical and mental benefits obtained from its practice, or on the physiological bases of this altered state of consciousness. These studies have advanced very much thanks to new brain scanning techniques. The most recent works have focused on neurological aspects of meditation, especially on the analysis of the electroencephalographic data, on patterns of brain activity, and the neurotransmitter pathways involved.

Fonte: Neurociências Volume III Nº 3: Revisões

A teoria sócio-culturalista de Vygotsky e o papel da linguagem na formação de conceitos: o que a psicologia experimental e a neurociência têm a nos dizer
The sociocultural theory of Vigotsky and the role of the language in the concept acquisition: what the experimental psychology and the neuroscience have to talk about
Paulo Estêvão Andrade

Resumo
As capacidades cognitivas humanas são notáveis, algumas delas incomensuravelmente superiores às de outros animais. Facilmente vamos além do que é perceptualmente presente e raciocinamos sobre sistemas abstratos, cujos mecanismos cognitivos subjacentes e sua aquisição do conhecimento no homem sempre foram questão de grande importância para filósofos, psicólogos, cientistas cognitivos e educadores, e o centro de calorosos debates entre estudiosos do mundo todo. As principais teorias do desenvolvimento cognitivo, como o behaviorismo, a teoria da informação-processamento, e as teorias sócio-culturalistas, compartilham duas idéias essenciais: a de que não há nada de inato na cognição humana, isto é, os bebês vêm ao mundo sem nenhuma estrutura mental que esteja diretamente relacionada ao tipo de mundo conceitual, lingüístico e social em que elas irão viver; e a idéia de que leva pelo menos dois anos para que a criança conquiste algum tipo de conceito sobre o mundo. Os sócio-culturalistas acrescentam que a aquisição dos conceitos é facilitada pelas inclinações das crianças para as interações sociais. Sócio-culturalistas como Vygotsky e Piaget, também chamados de construtivistas, têm grande influência na educação brasileira e representam as principais teorias dos estágios cognitivos, nas quais o desenvolvimento passa por estágios cognitivos qualitativamente diferentes e em uma dada ordem. O construtivismo piagetiano postula que representações mentais, adquiridas através de interações sensório-motoras com o mundo, possuem estágios com diferentes formatos de representação mental e de operações lógicas. Vygotsky postula que a cognição abstrata se desenvolve através das interações da criança com os sistemas cultural e lingüístico, sendo a linguagem o principal fator na construção dos conceitos. Nós discutiremos a abordagem sócio-histórica de Vygotsky, e o papel putativo da linguagem na formação dos conceitos sob à luz das mais recentes evidências da psicologia, neuropsicologia e neuroimagem de que bebês e crianças possuem notáveis competências conceituais as quais são de natureza não-verbal e continuam a permear a cognição do adulto.

Abstract
Human cognitive abilities are remarkable, and some are incommensurably superior to those of other mammals. We easily go beyond what is perceptually available to reason about abstract systems. The mechanisms underlying the acquisition of knowledge by humans are an issue of great importance not only for philosophers, psychologists, and cognitive scientists but also for educators, and have been at the center of hot debates among scholars around the world. Most of the main theories of cognitive development, such as behaviorism, information-processing and sociocultural theories, converge on two common views about infant and preschool cognition: 1) there is no innate cognition, and infants come to the world without any mental structures that relate to the kind of conceptual, linguistic, and social world in which they will live, and 2) children require as much as two years to begin to represent the world in terms of concepts. Socio-culturalists add that concept acquisition is facilitated by infants’ inclinations to social interactions. Some of them, like Vygotsky and Piaget, also referred to as to constructivists, incorporate the key assumption of stage theories that development involves the passage through qualitatively different stages in a given order. These are very influential authors in the brazilian education. Piagetian constructivism postulated increasingly complex mental representations learned through the child’s interactions with the world, and cognitive stages characterized by different representational formats and logical operations. Vygotsky’s constructivist approach argues that abstract cognition develops through the child’s interactions with cultural and linguistic systems. We will critically discuss about the socio-historical approach of cognition proposed by Vygotsky, and the putative role of language in the origin of concepts, in light of the accumulating body of evidence from psychological/behavioral, neuropsychological, and functional brain imaging studies showing that infants, toddlers, and preschoolers do have some remarkable conceptual competencies, which are of a non-verbal nature and continue to permeate adult cognition.

Fonte: Neurociências Volume III Nº 3: Revisões

Reabilitação motora e plasticidade neural: fundamentação teórico-conceitual para a recuperação funcional após lesões no sistema nervoso central
Motor rehabilitation and neural plasticity: theorical fundaments for the functional recuperation after neurologic lesions
Marco Antonio Orsini Neves, M.Sc., Kelly Cupti, Edgar Santos Coelho Junior, Victor Hugo Bastos, M.Sc.

Resumo
Com o avanço das pesquisas e dos métodos de imagem foi possível adquirir uma nova visão do sistema nervoso, não como uma estrutura rígida e imutável, mas sim flexível, que modifica sua estrutura funcional sob diferentes circunstâncias, expressando assim uma capacidade plástica durante o processo de adaptação. Este trabalho procura caracterizar diferentes abordagens referentes a estudos envolvendo a plasticidade neural e destacar a importância de um programa de reabilitação sensório-motora na reorganização do mapa cortical de indivíduos adultos acometidos por lesões neurológicas.

Abstract
The evolution of research and image methods has been instrumental in the development of a new vision of the nervous system not as a rigid and immutable structure, but as a flexible, functional one, which is modified under different circumstances, thus expressing a plastic capability during the adaptation process. This paper aims to characterize different approaches related to studies involving neural plasticity, as well as to stress the importance of a sensorymotor rehabilitation program towards the reorganization of the cortical map in adult patients with neurologic lesions.

Fonte: Neurociências Volume III Nº 1: Revisões

Efeitos da estimulação ambiental precoce e tardia sobre a performance cognitiva de ratos submetidos ao modelo de traumatismo crânio-encefálico difuso
Effects of early and late environmental enrichment on cognitive performance of rats submitted to a diffused traumatic brain injury
Fernando Amâncio Aragão, M.Sc., Lígia Aline Centenaro, Leandro Rocha, Eduardo Alexandre Loth, Gladson Ricardo Flôr Bertolini, M.Sc.

Resumo
Nesse estudo buscou-se verificar a influência da Estimulação Ambiental (EA) sobre a performance cognitiva de ratos submetidos ao modelo de traumatismo crânio-encefálico (TCE) e caracterizar a melhor janela terapêutica para sua aplicação. Ratos Wistar foram divididos em 4 grupos: (G1) animais submetidos à EA por 31 dias consecutivos a partir do dia seguinte à indução do TCE; (G2) ratos submetidos a isolamento por 31 dias consecutivos a partir do dia seguinte à indução do TCE; (G3) ratos submetidos a EA por 31 dias consecutivos, com início 35 dias após a realização do TCE; (G4) ratos submetidos ao isolamento por 31 dias consecutivos, com início 35 dias após a realização do TCE. A memória operacional dos animais foi avaliada através do teste do Labirinto Aquático de Morris. Os resultados conclusivos indicam que nos grupos G1 e G2, a EA não influenciou a performance cognitiva (p > 0,05); no entanto, foi encontrada melhora na performance cognitiva do grupo G3, com intervenção tardia, em relação ao grupo G4 (p < 0,05). A EA, portanto, mostrou-se eficaz em melhorar a performance cognitiva dos animais submetidos ao TCE quando aplicada de forma tardia (35 dias após a lesão).

Abstract
The aim of the current study was to examine the influence of environmental enrichment on the cognitive performance of rats submitted to a diffused traumatic brain injury (TBI) in order to find the best therapeutic window for its application. Wistar male rats were divided into 4 groups: (G1) animals submitted to environmental enrichment for 31 days, from the day after TBI; (G2) rats submitted to a 31-day isolation period from the day after TBI; (G3) rats submitted to environmental enrichment for 31 consecutive days, starting 35 days after TBI; (G4) rats submitted to a 31-day isolation period, starting 35 days after TBI. Working memory was evaluated with the Morris Water- Maze. The results indicate that only the late environmental enrichment (beginning 35 days after TBI) proved efficient to restore cognitive performance of rats submitted to TBI.

Fonte: Neurociências Volume III Nº 1: Artigos originais

Investigação teórico-prática do desenvolvimento motor de crianças de 2 a 11 anos
Theorical and practical inquiry of motor development in 2 to 11 years old children
Kátia Tomagnini Passaglio, Maristela Costa Andrade, Raul de Barros Neto, Camila Repolez Salgado, Cherlen Aidano Monteiro, Cleyde Maria Lara Vieira, Dalcira Pereira Ferrão, Darlene Machado Oliveira, Gisele Cristina de Oliveira, Joyce Godoy Corrêa,Karla Deysiane Machado Alvarenga e Tânia Santos Roma Cunha

Resumo
Este trabalho de pesquisa tem como base os conceitos trazidos pela psicomotricidade que considera que as potencialidades motoras, mentais e emocionais de um indivíduo estão em constantes interações e que o corpo é o local dessas manifestações do ser. As modificações tônicas, as posturas e os movimentos são os expoentes de toda a história pessoal do indivíduo, das suas representações, das suas vivências e de seu imaginário. Podemos relacionar o movimento com diversos aspectos do comportamento como de ordem motora, aspectos da inteligência, da afetividade e da percepção. O comportamento, portanto, é um fenômeno misto de intenções e desejos, associados a uma resposta motora. A construção do comportamento passa então, inicialmente, pela conscientização corporal, o que permite posteriormente a relação do indivíduo com o meio. Isto torna o indivíduo integrante ativo deste meio sendo capaz de influenciá-lo e de ser influenciado pelo mesmo. Esta integração inicia-se com um bom desenvolvimento motor infantil, através do qual a criança adquire características e habilidades físicas, que influenciam significativamente o seu auto-conceito, ponto de partida para uma boa estruturação psíquica. O objetivo deste estudo é reavaliar um instrumento de investigação do desenvolvimento motor de crianças, construído por Louis Picq e Pierre Vayer, para auxílio de profissionais e interessados que trabalham nesta área. A pesquisa foi realizada em nove instituições da cidade de Belo Horizonte, agrupadas em classes sócio-econômicas diferentes, baixa, média e alta. Foram pesquisadas, aproximadamente, 20 crianças em cada uma das instituições. Para o estudo das respostas psicomotoras, não foram observadas diferenças consistentes em relação aos gêneros, porém foram observadas algumas variações de respostas entre as classes sociais. A classe alta mostrou-se inferior principalmente em relação à classe baixa nos parâmetros relacionados com a coordenação e atividades motoras, refletindo possivelmente a limitação espacial e de universo em que estão diferentemente inseridos. Outras diferenças pontuais foram observadas no instrumento de avaliação psicomotora. No entanto, estas diferenças não comprometem a validade e fidedignidade do instrumento testado como um todo, uma vez que as crianças atualmente estão expostas a estímulos muito uniformes em quaisquer classes sociais.

Abstract
This research work is based on concepts brought from psychomotricity which considers that the motor, mental and emotional potentialities of an individual are in constant interaction and that the body is the place of these manifestations of the being. The tonic modifications, positions and movements are the exponents of all the personal history of the individual, of his representations, experiences and imaginary. We can relate the movement with different aspects of the behavior as motor aspects, intelligence, affectivity and perception. Behavior therefore is a mixed phenomenon of intentions and desires, associated to a motor response. Then, the construction of the behavior passes, initially, by body awareness, which later allows the relation of the individual with the external world. This makes the individual an active integrant of this external world, capable to influence it and to be influenced by it. This interaction is initiated with a good infantile motor development, through which the child acquires physical characteristics and abilities that influence the child’s concept of self, a starting point for a good psychic construction. The objective of this study is to reevaluate an instrument of inquiry of the motor development of children, built by Louis Picq and Pierre Vayer, to help professionals and people working in this area. The study was carried through in nine institutions of Belo Horizonte, grouped in different economic levels, low, average and high, with, approximately, twenty children in each institution. No consistent differences in psychomotor responses were observed in relation to gender, however some variations of responses between social levels were observed. The high economic level group was inferior to the low group in psychomotor response, mainly in the parameters related with the motor coordination and activities, possibly reflecting the space limitation of universe where they are differently inserted. Other important differences were observed in the instrument of psychomotor evaluation. However, these differences do not compromise the validity and accuracy of the tested instrument as a whole, since the children today are exposed to uniform stimulations in any social group.

Fonte: Neurociências Volume III Nº 1: Artigos originais

Análise biocomportamental
Biobehavioral analysis
Maria Teresa Araujo Silva

Resumo
Os aspectos mais relevantes da “análise biocomportamental” proposta por J.W. Donahoe são condensados nesta revisão. A perspectiva é selecionista, uma vez que todo comportamento é considerado como resultante, seja da seleção natural na filogênese, seja da seleção pelo reforço na ontogênese. Na análise de Donahoe, a compreensão do comportamento humano complexo exige a integração dos níveis fisiológico e comportamental de análise, sem que isso represente quebra dos princípios comportamentais que regem a relação funcional entre eventos do ambiente e comportamento. Em ambos os níveis pressupõem-se comprovações experimentais independentes. A especificação dos eventos neurais que ocorrem no lapso temporal-espacial entre eventos ambientais e comportamento complementa a explicação comportamental, sem substituí-la. A análise de Donahoe se vale ainda de redes neurais, formadas pela interconexão de unidades artificiais, para revelar implicações da integração entre neurociência e comportamento.

Abstract
Relevant features of the “biobehavioral” analysis advanced by J. W. Donahoe are presented. In a selectionist approach, all behavior is considered a result either from natural selection in phylogeny, or from selection by reinforcement in ontogeny. In Donahoe’s analysis, understanding complex human behavior requires an integrated approach to neural and behavioral levels of analysis, without departing from the behavioral principles that rule the functional relation between environmental and behavioral events. Independent experimental evidence is expected from both levels. Specifying neural events that fill the gap between environment and behavior completes the behavioral account without replacing it. Donahoe’s approach also relies on neural networks interconnecting artificial units in order to reveal further implications of the integration between neuroscience and behavior.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 1: Revisões

Metapsicologia científica: revisando os fundamentos da teoria psicanalítica do recalque
Scientific metapsychology: a review of the foundations of the psychoanalytic theory of repression
Carlos Eduardo de Sousa Lyra

Resumo
Neste artigo, apresento uma revisão dos fundamentos da teoria psicanalítica do recalque a partir de uma metapsicologia científica, possibilitada pelas recentes descobertas da neurociência. Analiso a distinção entre os conceitos de recalque e repressão na obra freudiana, bem como exponho os limites entre os processos mentais consciente, pré-consciente e inconsciente, ao relacioná-los com os tipos de memória (implícita e explícita). O objetivo principal dessa exposição é mostrar a possibilidade de empreender uma releitura de Freud a partir dos referenciais neurocientíficos atuais, considerando a psicanálise como um conhecimento na fronteira entre a filosofia da mente e a neurociência. Uma revisão da teoria psicanalítica nestes termos visa, em última instância, a uma compreensão mais adequada dos fenômenos observados na clínica, e a reafirmação da psicanálise como psicoterapia.

Abstract
In this article, we present a revision of the fundations of the psychoanalytic theory of repression from a scientific metapsychology, made possible by the recent discoveries of neuroscience. We analyze the distinction between the concepts of repression and suppression in freudian works, as well as we display the limits between conscious, preconscious and unconscious mental processes, relating them with the types of memory (implicit and explicit). The main objective of this exposition is to show the possibility of making a new reading of Freud from the current neuroscientific references, considering the psychoanalysis as knowledge on the limits between philosophy of mind and neuroscience. A revision of the psychoanalytic theory in these terms aims, in last instance, a better understanding of the phenomena observed in clinic, and the reaffirmation of psychoanalysis as psycotherapy.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 2: Revisões

Localização de neuropeptídeos responsáveis pelo controle do peso corporal no hipotálamo de búfalos (Bubalus bubalis)
Localization of neuropeptides responsible for body weight control in bubaline hypothalamus (Bubalus bubalis)
André Walsh-Monteiro, Carol Fuzeti Elias, Artur Silva e Silene Maria Araújo de Lima

Resumo
O desenvolvimento da bubalinocultura brasileira representa uma das mais importantes atividades do agronegócio nacional. O objetivo deste estudo é descrever, nestes animais, a distribuição hipotalâmica de dois diferentes neuropeptídeos envolvidos no controle de peso corporal, já descritos em uma variedade de outros mamíferos. Três animais adultos pertencentes a fazenda Kakuri, Abaetetuba/PA, tiveram seus encéfalos dissecados e fixados com paraformaldeído 4% em tampão fosfato de sódio 0,1M acrescido de sacarose a 20%. O hipotálamo foi seccionado no plano frontal e dividido em 12 séries. Em uma das séries realizamos a técnica de coloração de Nissl de maneira a estudar a citoarquitetonia do hipotálamo de búfalo. Identificamos vários núcleos, incluindo o núcleo arqueado (Arc), núcleo supraquiasmático (SQ), área hipotalâmica lateral (AHL) e o núcleo paraventricular do hipotálamo (PVH). Através de técnicas de imunoperoxidase, pudemos observar imunoreatividade ao neuropeptídeo Y (NPY-ir) em neurônios do Arc, e imunoreatividade para o transcrito regulado pela cocaína e anfetamina (CART-ir) em neurônios do Arc, AHL e PVH. Ambos os peptídeos têm sido relacionados ao controle do peso corporal em mamíferos. A compreensão da regulação do peso corporal pelos núcleos hipotalâmicos é crucial para o entendimento dos mecanismos moleculares envolvidos no controle do balanço energético em búfalos. Esse tipo de análise poderá nos conduzir ao desenvolvimento de novas tecnologias que propiciem o aumento e qualidade do rebanho.

Abstract
The development of the brazilian bubalineculture represents one of the most important activities of national agrobussiness. The aim of this study is to describe, in bubalines, the hypothalamic distribution of two different neuropeptides involved in body weight control, already characterized in a variety of other mammals. Brains of three adult animals pertaining to Kakuri farm, AbaetetubaPA, were dissected and fixed in 4% paraformaldeyde in phosphate buffer 0,1M with 20% sucrose added. Each hypothalamus was cut in frontal plane, and 12 series were collected in antifreeze solution. In one series we performed Nissl staining in order to study the cytoarchitecture. We identified various nuclei including the arcuate nucleus (Arc), suprachiasmatic nucleus (SQ), lateral hypothalamic area (AHL) and the paraventricular nucleus of the hypothalamus (PVH). Using immunoperoxidase techniques we observed neuropeptide Y immunoreactive (NPY-ir) neurons in the Arq, and cocaine and amphetamine regulated transcript immunoreactive (CART-ir) neurons in the Arc, AHL and PVH. Both peptides have been related to body weight regulation. The comprehension of hypothalamic nuclei that regulate body weight are crucial to the understanding of molecular mechanisms involved in the control of energy balance in buffaloes. This approach may culminate on the development of new technologies leading to breed improvement.

Fonte: Neurociências Volume II Nº 2: Artigos originais

Relógios biológicos existem?

Relógios biológicos existem?

Menna-Barreto conseguiu provocar os participantes durante todo o evento. Tanto durante as conferências quanto nos intervalos, todos discutiam se relógios biológicos realmente existem. A argumentação foi de que o atual conhecimento da cronobiologia, tanto em relação aos estudos comportamentais quanto aos de biologia molecular, fazem com que a expressão “relógios biológicos” seja desnecessária e que atualmente deveríamos falar apenas que os “relógios biológicos” foram construtos teóricos utilizados pelos pesquisadores para explicar os modelos da ritmicidade circadiana.

Menna-Barreto não está sozinho; outros autores também concordam com ele, como o pesquisador Colin Pittendrigh, um dos pais da cronobiologia. Michael Menaker [2] relata a seguinte conversa que teve com Pittendrigh dois dias antes deste falecer: “One of the last things that Colin Pittendrigh said to me, at the end of his life, was that he thought the term ‘biological clock’ had probably outlived its usefulness. I initially disagreed primarily because it has been such a useful term in generating interest. However, his point was well taken: it may be more useful to talk about ‘temporal programs’, not clocks per se.” Brandstaetter [3] em uma discussão sobre os osciladores periféricos considera que é necessário superar o dogma de que “os núcleos supraquiasmáticos sejam o relógio circadiano central”, e considerá-lo como um sincronizador do meio interno.

Em nosso trabalho de mestrado [4], propusemos um modelo de rede de múltiplos osciladores com múltiplas freqüências como um modelo explicativo para a ritmicidade biológica. Esta idéia foi inspirada no modelo de rede imunológico. Concordamos com Menna-Barreto e consideramos que devem haver novas definições dos termos atualmente usados na cronobiologia. Assim, propomos que o termo “relógio” seja trocado para “oscilador” e que, quando olharmos o indivíduo como um todo, devemos utilizar o termo “sistema de sincronização circadiano”. Para os núcleos supraquiasmáticos, devemos utilizar o termo “conjunto de osciladores circadianos sincronizados pela luz”. Para outros osciladores, devemos defini-los como osciladores circadianos sincronizados por uma pista ambiental (como o oscilador sincronizado por ciclo de alimentos) ou osciladores circadianos sincronizados por sinais internos (neurais ou humorais) para os osciladores periféricos.

Hoje sabemos que além do oscilador circadiano sincronizado pela luz (os núcleos supraquiasmáticos), há vários outros osciladores circadianos periféricos. Quase todas as células de um mamífero expressam as proteínas relacionadas com o mecanismo molecular que controla a ritmicidade circadiana e são capazes de gerar um ritmo circadiano auto-sustentável quando isoladas em meio de cultura. Sabemos que há uma influência neural/humoral dos núcleos supraquiasmáticos sobre os osciladores periféricos. Talvez, em um futuro breve, encontraremos um sinal humoral periférico que module a ritmicidade circadiana, influenciando a atividade dos núcleos supraquiasmáticos, assim como hoje sabemos que hormônios produzidos perifericamente, tais como a leptina pelos adipócitos e a grelina pelo estômago, modulam o comportamento alimentar.

A provocação de Menna-Barreto, mais do que promover uma necessidade de atualização dos termos cronobiológicos, é um grande exemplo para os jovens de que o fazer ciência está sempre promovendo mudanças na nossa maneira de olhar a realidade.

Referências

1. O International Symposium on Circadian Rhythms, Sleep and Memory foi organizado pelo Laboratório de Cronobiologia do Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia – UFRN, no período de 15 a 18 de junho de 2005 na cidade do Natal, RN.

2. Menaker M. Chair´s introduction. In: Molecular clocks and light signaling. Chichester :Wiley, (Novartis Foundation Symposium 253); 2003. p.1-2.

3. Brandstaetter R. Circadian lessons from peripheral clocks: Is the time of the mammalian pacemaker up? PNAS 2004;101:5699-700. 4. Araujo JF e Marques N. Intermodulação de freqüências. In: Marques N, Menna Barreto L, eds. Cronobiologia: princípios e aplicações. 3 ed. São Paulo: EDUSP; 2003. p.99-117. 05_Opiniao John.pmd 12/8/2005, 17:13 188 Black    

Rejeição “causa mesma reação no cérebro que dor”

Rejeição “causa mesma reação no cérebro que dor”

Voluntários foram chamados a participar de um jogo por computador que os fazia de tolos, excluídos, enquanto “fotografias” do cérebro eram retiradas a cada momento.

Depois da rejeição por computador, o exame detectou atividade em uma área do cérebro que geralmente é ligada à dor física. Especialistas dizem que o estudo, publicado na revista científica Science, mostra a importância que o cérebro dá aos laços sociais.

Manipulação

Os pesquisadores envolvidos no estudo utilizaram um aparelho de ressonância magnética para monitorar os participantes da pesquisa assim que seus sentimentos eram manipulados.

Os aparelhos detectavam mudanças sutis no fluxo de sangue em várias partes do cérebro – o que indicava que a região estava ativa. Para provocar a resposta certa, os cientistas desenvolveram um engenhoso programa de computador designado a fazer as pessoas se sentirem excluídas em uma espécie de video game. Os participantes observavam numa tela dois personagens virtuais e recebiam a informação de que outros dois personagens também estavam sendo controlados por pessoas.

Essa informação, no entanto, era falsa, já que os outros dois participantes eram apenas uma simulação. O programa fazia com que o particpante da pesquisa sempre se sentisse preterido.

No começo, a bola do jogo era dirigida igualmente aos três jogadores, mas, em seguida, dois personagens cibernéticos começavam a jogar a bola um para o outro, aparentemente excluindo o “humano”. Foi nesse ponto que as reações começaram a ser detectadas via ressonância magnética.

Área da dor

Os pesquisadores notaram que uma área chave do cérebro se salientava quando a rejeição ocorria. Essa área, na parte anterior do córtex, já é associada com as respostas do cérebro aos sentimentos desagradáveis trazidos pela dor física. A reação, neste caso, não foi apenas uma frustração por não poder jogar. Os cientistas já haviam testado, anteriormente, a reação causada pela frustração, simulando que os controles do jogo não funcionavam e que, portanto, o participante não poderia jogar.

“As evidências sugerem que algumas estruturas neurais utilizadas na experiência da dor também podem estar associadas à rejeição social”, diz o relato da equipe.

Jaak Panksepp, do Centro de Neurociência, Mente e Comportamento da Bowlind Green State University, de Ohio, diz que o sentimento de rejeição social mexe com instintos poderosos em humanos e animais.

“Os sentimentos induzidos por jogos experimentais no laboratório são uma sombra dos sentimentos na vida real que os homens e animais experimentam em resposta a uma repentina perda de apoio social.” A dor psicológica nos humanos, especialmente o luto e a solidão, segundo o cientista, podem dividir os mesmos neurônios usados par a elaborar a dor física.

“Dada a dependência dos jovens mamíferos de seus tutores, não é difícil entender o significado de sobrevivência dado aos neurônios comuns que elaboram tanto o sofrimento físico quanto as dores afetivas.”